Ascensão e queda de gigantes: amadurecimento do capitalismo de vigilância?

Beemonte e Leviatã. Gravura pintada por William Blake, poeta, tipógrafo e pintor inglês, sendo sua pintura definida como pintura fantástica. Blake viveu num período significativo da história, marcado pelo iluminismo e pela Revoluçao Industrial inglesa.

Editores da revista Wired, Nicholas Thompson e Fred Vogelstein fizeram uma reportagem bacana. Nela, buscam demonstrar como o Facebook, internamente, lidou com estes últimos dois anos de crise, decorrente do alarme e histeria em torno das viralização de “notícias falaciosas”, ou “notícias falsas”, e a intervenção russa nas eleições americanas. A reportagem, por si, já é interessante e, dentre outras questões, chama a atenção a forma como retratam o conflito entre o Facebook com a “indústria de notícias”, quase numa versão personalizada do conflito, entre Mark Zuckerberg, fundador e presidente do Facebook, e Keith Rupert Murdoch, o acionista majoritário de um dos maiores grupos midiáticos do mundo, News Corporation.

Internamente, a reportagem se desenvolve fazendo referências a fofocas internas da empresa e, por vezes, a alguns de seus executivos. Para Sandy Parakilas, ex-administradora de privacidade dos usuários do Facebook, a empresa é um Beemonte [1], à época, de $ 500 bilhões de dólares desde a abertura de seus “initial public offering” (IPO). Ela acusa, na reportagem ao New York Times, que trata-se de uma empresa que está mais preocupada em coletar os dados de seus usuários do que protegê-los.

“O que eu vi por dentro foi uma companhia que priorizava a coleta de dados de seus usuários ao invés de protegê-los de abusos”. “What I saw from the inside was a company that prioritized data collection from its users over protecting them from abuse.”

Outro figurão foi Roger McNamee, que teria sido um investidor inicial no Facebook e consultor de Zuckerberg nos anos iniciais da empresa. Ele vai à mídia manifestar uma avaliação sobre o Facebook destacando preocupação por considerar que “o Facebook estaria sendo usado de modo não desejado pelos seus fundadores”.

A consideração que é possível extrair disso, por ora, é que o Facebook está como vitrine, alvo de críticas sobre como tem lidado com as questões levantadas e, sobretudo, questionamentos sob quais deveriam ser suas responsabilidades. As questões referentes às “notícias falaciosas” são relevantes e, particularmente, considero que essa discussão pode ter um potencial de investigação muito relevante, na medida em que versa sobre credibilidade e confiança sobre as instituições na sociedade. Tomando o próprio caso das eleições estado-unidenses como exemplo, o enfoque tratado sobre essas “notícias falaciosas” toca a confiança sobre as instituições da democracia liberal americana.

Somado a este aspecto, de gestação de desconfiança, há outro relacionado, precisamente, com o entrecot do negócio do Facebook: coleta, processamento e análise dos dados de seus usuários e prestação de serviços. Por meio desse garimpo massificado da realidade cotidiana dos usuários da plataforma, a empresa é capaz de, além da publicidade direcionada na plataforma, vender serviços em que alega capacidade de mudar a opinião das pessoas -- como o caso da campanha eleitoral do Senador estado-unidense, Toomey, cuja campanha usou “estratégia de conteúdo para audiência específica para mudar significativamente a intenção do eleitor e aumentar a favorabilidade para um candidato” “audience-specific content strategy to significantly shift voter intent and increase favorability for a US Senate candidate from Pennsylvania, contributing to his re-election.” -- um poder que, por ser tratado, ao mesmo tempo, de modo simplificado, é tratado como real e, sobretudo, inexorável. Algo similar ao caso da campanha da própria Cambridge Analytica na campanha para o “Brexit” e na eleição de Donal Trump.

A sustentação dessa crença, isto é, no poder destas companhias sobre as formações das preferências individuais, reside, dentre outras questões, pela base epistêmica que embala a noção de “Big Data”, a compreensão de como se produz conhecimento acerca da realidade, pela coleta, processamento e análise de dados. Assume-se que os dados coletados são -- permitam o exagero -- quase infinitamente massivos e, portanto, a ideia que seu processamento permitirá uma captação mais fidedigna da realidade do que com relação a formas anteriores de análise. A aplicabilidade instantânea da análise desses dados - possibilitada pelo desenvolvimento de algoritmos destes serviços - é o passo crucial para viabilização desses serviços e negócios. Assim, supostamente, estas empresas “sabem mais da nossa vida do que nós mesmos”.

O serviço de publicidade direcionada para os usuários destas plataformas é representação fiel do exercício dessa capacidade de coleta, processamento e análise. Como comenta Marcos Dantas (2017, p.08-09) [2], a noção, nos primórdios da internet, de uma rede enquanto um espaço-tempo onde, como usuários, podemos realizar buscas de conteúdos livres, está sendo transfigurada para um espaço-tempo onde nos é ofertado aquilo que, supõe-se, ser nossas preferências. A sua diferença, para com relação aos outras mídias -- como rádio ou televisão, por exemplo -- reside, justamente, no potencial invasivo, célere, direcionado e, com a mobilidade dos celulares, quase constante.

Assim, ao considerar que empresas como Facebook, Cambridge, entre outras, são capazes de modular as preferências humanas de seus usuaŕios, justamente por serem capaz de encapsular a realidade cotidiana em seus algoritmos, coloca-se, sobre a perspectiva de resistência a este poder, uma sensação de impotência. Afinal, se estas empresas são capazes de definir as preferências das pessoas nas eleições ou em plebiscitos, onde fica a autonomia na constituição das mobilizações sociais nestes processos políticos?

A preocupação sobre as formas que essas empresas podem minar a autonomia das pessoas, em certa medida, eu já manifestei em outro texto, neste Observatório, baseado em grande parte no trabalho de Shoshana Zuboff [3]. Contudo, acho que o enfoque da reflexão que realizei nele está equivocado. Como bem problematiza Kate Crawford, o problema não reside tanto sobre se estas empresas, de fato, são capazes de fazer o que dizem que fazem, mas, sim, se, a partir do que elas dizem serem capazes, se elas ameaçam de esvaziar o sentido de ideias caras à democracia em função de potencializarem uma noção de impotência quanto à resistência e mudança contra a atual ordem estabelecida.

Assim como é preciso considerar os vícios epistêmicos do Big Data, que assume minerar a realidade de forma precisa; precisa-se compreender que a premissa sobre a interferência destas plataformas sobre a formação das preferências individuais tende a ser sobreestimado. Trata-se de um fetiche na tecnologia.

Talvez o movimento de regulamentação das gigantes da internet -- como sugere Parakilas em seu texto -- pode ser encarada como uma tentativa de colocar freios sobre o beemonte. Como se, de modo geral, o aviso feito por Zuboff -- que também faço referência no outro texto mencionado -- esteja sendo compartilhada por economistas, políticos e empresários cuja reação pela regulamentação seja uma resposta deles ao amadurecimento desta lógica de acumulação gestada na transição do século XIX para o XXI.

Se considerarmos essa hipótese, podemos considerar, então, que o alarme quanto ao risco da democracia no Ocidente possa ser amenizado. É possível que sim, assim, como que, não.

Poder ser, também, que o movimento de regulação destas gigantes da internet seja, como hipótese alternativa, a antessala de uma nova etapa do desenvolvimento desta lógica de acumulação baseada na vigilância. Portanto, além dos freios, busca-se colocar arreios sobre o beemonte.

Para melhor explicar essa segunda hipótese precisarei fazer uma breve retrospectiva histórica.

Retrospectiva histórica arrighiana

Para melhor elocubrar a hipótese já mencionada, direi que miramos, possivelmente, o momento de constituição, por via dessa regulamentação, de uma instituição econômica de novo tipo, assim como fora em momentos anteriores do capitalismo. Faço esse argumento a partir da referência do trabalho de Giovanni Arrighi,  O Longo Século XX [4].  Nele, Arrighi analisa o processo de evolução do capitalismo ao longo do que ele define de quatro ciclos sistêmicos de acumulação, em que cada um deles consiste um, por assim dizer, modelo de desenvolvimento do capitalismo, conduzido por agentes econômicos e políticos de determinado país que, dadas as oportunidades e condições, construíam a hegemonia sobre a “governança” dessa etapa do capitalismo.

A transição de um ciclo de acumulação para o outro ocorriam como oportunidades de construção de novas hegemonias. Estas oportunidades são percebidas em momentos de aparente caos sistêmico, decorrente das situações de crise, caracterizadas pelo acirramento da disputa entre os Estados e entre os agentes econômicos sobre o capital.

Arrighi emula o Modelo de Metamorfose de Mesch para ilustrar a sua compreensão sobre a dinâmica dos referidos ciclos. Os ciclos de acumulação sistêmico não são a mera repetição de padrões econômicos e políticos, com uma constante reprodução, mas “ciclos compostos de fases de mudanças contínuas, que seguem uma via única, alternando-se com fases de mudanças descontínuas, que vão de uma via para outra” (Arrighi, 2009, p.09). Cada ciclo tem seu momento de emergência, ascensão, ápice e declínio.


Na transição de um ciclo de acumulação para o outro é possível que haja a reprodução de determinados padrões na dinâmica da economia, como a própria lógica de acumulação capitalista. Ainda assim, na medida em que cada ciclo inaugura uma outra “via” de desenvolvimento, ele pode inovar determinado padrão do ciclo anterior ou mesmo criar uma anomalia, algo próprio.

Para o que diz respeito a discussão deste texto, o que nos interessa é o momento da transição do ciclo de acumulação sistêmico sob a hegemonia Britânica para o ciclo de acumulação sob a hegemonia estado-unidense. A alteração de uma via de desenvolvimento sustentada pela expansão colonial, trabalho escravo, relativa expansão do sistema de Estados nacionais e a revolução industrial, no século XIX; para uma via de desenvolvimento baseada na produção e consumo de massas, constituição da noção universalidade dos direitos humanos, ampliação das lutas pela democratização dos sistemas de governos representativos e antagonismo com modelos socialistas.

Dentre o conjunto de condições e aspectos históricos que oportunizaram essa transição sistêmica, da hegemonia britânica para a estado-unidense, foco sobre o processo de constituição daquilo que Alfred DuPoint Chandler Junior define como a “empresa de negócios moderna”, enquanto o fenômeno que marca a “revolução gerencial americana”. Trata-se do momento, iniciado em meados do século XIX e desenvolvido no início do século XX, de internalização em um único campo organizacional de atividades e transações, garantindo, assim, maior velocidade e, consequentemente, volume no processo de produção, distribuição e gestão dos recursos. Seu ápice será a produção e consumo de massa.

A gestação dessa empresa moderna, para Chandler, ocorrerá no processo de expansão do sistema de transporte e comunicação da economia nacional dos Estados Unidos na metade do século XIX. Sendo mais específico, o germe da revolução gerencial de Chandler reside na constituição da empresa de gestão da rede ferroviária e da rede telegráfica.

A necessidade de articular diversas unidades de gestão da rede férrea constituída no território estado-unidense, por meados do século xix, acompanhando a expansão da ocupação e invasão deste território, em direção à costa oeste, foi um dos condicionantes às empresas de ferrovias para tornaram-se pioneiras na sua configuração da “empresa moderna”. As empresas proprietárias e gestoras das vias férreas, assim como as empresas de comunicação dos telégrafos e, mais tarde, do telefone, distinguiram das empresas de outros setores pois tinham, em seus espaços de direção, gestores que não eram nem sócios-proprietários, nem sócio financiadores do empreendimento. Era uma classe profissional de gestores assalariados.

Trabalhadores da rede férrea da "Union Pacific Railroad" em Nebraska. A ilustração retrata membros da nação Pawee que protegem os trabalhadores. Image online via the Linda Hall Library (Kansas City, Missouri)

Para auxiliar na compreensão das implicações desse fenômeno analisado por Chandler na dinâmica do ciclo de acumulação sistêmico, Arrighi toma como ilustração a própria fórmula marxista que exemplifica a lógica capitalista da economia como um todo, não apenas a lógica da produção localizada, de uma única unidade produtiva da economia:

Capital (C) -> Mercadoria (M) … Processo de transformação (P) … Mercadoria*(M’) -> Capital*(C’)

As transformações tecnológicas e institucionais nos setores de transporte e comunicação incidem, basicamente, no trecho de (P). As ferrovias, o telégrafo e a técnica de gestão incidem sobre a velocidade do processamento de transformação da (M) em (M’), no processo de agregação de valor na mercadoria. Ao passo que o setor de transporte e comunicação incide, em partes, sobre a velocidade do (P), ela permite que haja, consequentemente, maior volume de mercadorias sendo produzidas em menos tempo. Consequentemente, em outras palavras, fenômeno analisado por Chandler, pelo aumento da velocidade, reduz o tempo que o capital inicial (C ) leva para converter-se em lucro (C*).

Esse fenômeno, o do incremento da velocidade da produção capitalista, tem sido observado por Marcos Dantas em suas análises sobre a economia política destas plataformas digitais. “No  século  XIX,  essa   busca  levou  à  invenção  da  telegrafia,  da  ferrovia, da navegação a vapor. Era "o máximo" para aquela época. O século XX assistiu à expansão da telefonia e da radiodifusão, além dos veículos movidos a motor a explosão” (Dantas, 2017, p.12-13)

O modelo institucional das empresas de ferrovia e de telégrafo, no final do século XIX, serviu, mais tarde, de referência às indústrias de outros setores, como a automobilística. Contudo, para o que nos interessa, em termos de comparação com o momento atual, essas empresas do setor de transporte e de comunicação encontraram, ingressaram no início do século XX, segundo Chandler (p.203-204), com economistas, empresários e políticos discutindo formas de regulamentar e garantir o controle público delas.

Se naquela virada de século, do XIX para o XX, havia uma preocupação com os “capitães da indústria” e os “barões ladrões”, as personas que lideravam o “agigantamento” destas empresas; na virada do século XX para o XXI nos deparamos com uma preocupação similar com os “sultões do silício

Robber barons and silicon sultans | The Economist

Aparentemente os “gigantes da internet”, como o Facebook, poderiam ter, em termos históricos, papel similar para o desenvolvimento do capitalismo no século XXI aquele analisado por Chandler. Assim como as empresas de vias férreas e de sistemas de telégrafo, do sistema de transporte e comunicação, ambos necessários para a produção e distribuição de bens e produtos na economia capitalista, os beemontes digitais assumem esse papel, tanto de transporte e comunicação na medida em que a mercantilização de dados torna-se elemento fundamental nesta emergente lógica de acumulação.

Portanto, a hipótese que esse processo busca colocar freios e arreios aos beemontes da internet é uma antessala para uma nova etapa do desenvolvimento desta lógica de acumulação baseada na vigilância é plausível. Assim como as empresas no início do século XX, referidas por Chandler, sofreram, após seu período de crescimento, pressões de regulamentações e, destes processos, tiveram como síntese o desenvolvimento da lógica deacumulação baseada na produção e consumo de massa; as plataformas digitais enfrentam processo de regulamentação similar.

O século XX foi um momento alvissareiro para a reconhecimento e manifestação de soberanias populares, embora não nas mesmas proporções em cada região do globo. Ainda assim, a busca do controle público das grandes empresas modernas se inseriu em um processo político mais amplo de democratização dos sistemas de governo, muito em conta das mobilizações sociais pela ampliação dos direitos civis e políticos; quanto das mobilizações nacionalistas pela independência dos povos nos continentes africano e asiático.

Agora, o processo de regulamentação no século XXI se insere em meio a que tipo de mobilizações sociais nos países capitalistas?

 

Referências

[1] Wikipedia. Beemote ou behemoth (em hebraico transcrito como בהמות, Bəhēmôth, Behemot, B'hemot; em Árabe بهيموث, Bahīmūth, ou بهموت, Bahamūt)[1] é uma criatura descrita na Bíblia, no livro de Jó, 40:15–24. Sua descrição é tradicionalmente associada à de um monstro gigante, podendo ser retratado como um leão monstruoso, apesar de alguns criacionistas o identificarem como um saurópode ou um touro gigante de três chifres. Em uma outra análise vemos este como um animal pré-histórico muito conhecido como braquiossauro.

[2] DANTAS, Marcos. Internet: praças de mercado sob controle do capital financeiro. LX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. 2017 Disponível:http://marcosdantas.com.br/conteudos/wp-content/uploads/2017/11/Comunica%C3%A7%C3%A3o-2017_modelo_corrigido.pdf

[3] ZUBOFF, Shoshana. Big other: surveillance capitalism and the prospects of an information civilization. Journal of Information Technology (2015) 30, pp.75-89. Palgrave Macmillan. Disponível em: < http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2594754 > Acessado em: 13 Ago

[4] ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX: dinheiro, poder e as origens do nosso tempo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009