Assimetrias na velocidade de conexão da Internet: consequência ou condição do sistema-mundo?

Recentemente a Akamai divulgou um mapa em seu site que retrata a velocidade média de conexão da internet no globo. A Akamai é considerada a maior empresa do mundo a oferecer serviços de Contend Delivery Network, sendo responsável pela entrega de 15% a 30% dos dados trafegados na Web. Para mais informações sobre CDNs ver artigo de Nathalia Sautchuk Patrício.

 

Este mapa sobre a velocidade média de conexão foi elaborado através de uma representação cartográfica chamada hot to cold (quente para o frio). Quando utilizada para representar fenômenos com impactos sociais, emprega-se cores de matizes diferentes, com atributo valorativo, para conduzir a uma leitura do fenômeno de modo a associar as cores quentes a situações socialmente críticas em oposição às cores frias, como o verde e o azul. Isso significa que os tons de vermelho podem retratar graficamente tanto valores altos quanto valores baixos a depender do significado social do evento representado. Como exemplo, podemos considerar que fenômenos como a ocorrência de H1N1 e mortalidade infantil teriam os maiores valores representados em vermelho e os menores com cores de tonalidades frias. No entanto, ao retratar o grau de escolarização ou a renda per capita certamente seriam empregadas as cores quentes para representar os menores valores, como situações sociais indesejáveis.

A velocidade de conexão é um indicativo cuja expressão valorativa, no que tange seu impacto social,  é de fácil julgamento. Não surpreende que os países com menor velocidade de conexão sejam representados com tons de vermelho e laranja, uma vez que isto representa piores condições na circulação da informação digital. Mas quais outras interpretações poderíamos tecer a partir deste mapa para além da simbologia gráfica?

A primeira delas é sem dúvida sua conformidade com a divisão conceitual do globo entre norte global desenvolvido e sul global subdesenvolvido ou, em sua versão politicamente correta, "em desenvolvimento". Assim como a divisão norte/sul econômica segue uma linha curva, incluindo países ao norte da linha do equador no sul global e países situados ao sul do equador no norte global (notadamente a Austrália), é possível observar o mesmo padrão quando se tratada de velocidade de conexão. Neste mapa os países do norte global com coloração em tonalidades de amarelo e verde, refletindo superioridade em termos de fluidez dos dados digitais, contrastam com o sul global onde a faixa de coloração avermelhada expressa uma velocidade de conexão duas a três vezes menor. Com este primeiro apontamento poderíamos propor então uma segunda indagação: as condições de desenvolvimento econômico de cada país seriam o fator responsável  pelo correspondente estado de conectividade, ou, o estado da conectividade recairia sobre o desenvolvimento econômico?

Embora aparentemente tautológica, esta questão pode trazer um exercício de reflexão significativo para entendermos a relação entre a fluidez dos territórios e o desenvolvimento econômico.

A produtividade enquanto uma dimensão qualitativa dos objetos técnicos, sobre os quais a economia se assenta, é igualmente um atributo dos espaços que os qualifica e classifica dentro da ordem de divisão territorial do trabalho tanto na escala intranacional quanto na escala internacional.

A fluidez é um atributo dos territórios que reporta às condições técnicas e estruturais capazes de promover tanto a circulação material (mercadorias, pessoas) quanto imaterial (informações, dados, valores) de modo mais ágil ou menos ágil. Na economia global contemporânea onde a produtividade depende do atributo de fluidez dos lugares, espaços mais fluídos ou menos fluídos apresentam-se como mais rentáveis ou menos rentáveis aos interesses do capital.[1]

A velocidade de conexão da Internet diz respeito à dimensão digital da fluidez dos territórios, sendo um importante qualitativo da diferenciação espacial contemporânea. Hoje, a circulação da informação produz valor assim como o valor circula na forma de informação. No mercado financeiro, por exemplo, o tempo que conta como vantagem em uma transação situa-se na ordem dos milissegundos através dos quais determinados agentes conseguem vantagem no processamento e circulação de informação, resultando em lucros que ultrapassam a casa dos milhões. No mercado de ações, a massa dos processos decisórios transcorre através da gestão de dados por software, conjugando informação, tempo e algoritmos.

Contudo, a fluidez digital depende forçosamente da fixidez das redes - backbone - e dos nós - provedores - que a servem. Os fluxos não prescindem dos fixos. São, antes, pares complementares.

Neste caso, a observância do desenvolvimento da infraestrutura da Internet traz informações valiosas sobre o processo de construção da diferenciação espacial global no que se refere à fluidez digital e seus impactos econômicos.

A expansão das redes digitais pela via privada, durante a década de 1990, esteve intimamente ligada ao modelo econômico neoliberal da época, cuja conjuntura delineava-se tanto por uma resposta à crise econômica deflagrada na década anterior, quanto pelo cenário político ao qual se assistia com o fim da Guerra Fria, com a dissolução da União Soviética. O marco deste processo de liberalização do setor de telecomunicações deu-se a partir de uma série de mudanças legais, as quais se projetaram tanto sobre as escalas nacionais, quanto sobre a escala internacional. 

No Brasil a abertura para a privatização deu-se sob a gestão do governo Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 1997, partindo de um conjunto de alterações na constituição de 1988, e culminando com o leilão da TELEBRÁS em 1997 e a criação da ANATEL, enquanto agência reguladora. Nos Estados Unidos, a lei de telecomunicações de 1996 alterou o cenário do monopólio exercido pela AT&T no país, mas, principalmente, passou a permitir a fusão e aquisição de empresas estrangeiras, expandindo a atuação estadunidense no mundo das telecomunicações e pelo mundo afora.   

No plano mundial, até 1998 a União Internacional das Telecomunicações (UIT)  coordenava a relação entre as operadoras nacionais e geria acordos sobre o posicionamento dos satélites, atuando como um organismo internacional regulador e diplomático. Neste ano, mais de cem países assinaram o Acordo Sobre Serviços Básicos de Telecomunicações da Organização Mundial do Comércio (OMC), o qual consistia na adoção de políticas de liberalização do setor, abrindo espaço para a privatização, para a competição e a criação de agências reguladoras nacionais.[2] "A OMC moveu-se gradualmente para o centro do regime internacional de telecomunicações, tradicionalmente governado pela UIT" (KURBALIJA, 2005, p. 39).[3]

A lógica privada de expansão da infraestrutura da Internet tem levado ao longo dos anos à reprodução de um modelo concentrado dos recursos técnicos em áreas onde há grande circulação de capital. Contudo, essa dinâmica que produz diferenças espaciais, baseada em uso corporativo do território, não é contraditória e tampouco refere-se a uma anomalia do sistema. Ela é própria do contexto capitalista do espaço globalizado, o qual reproduz-se justamente sobre um desenvolvimento desigual e combinado.[4]

Isto significa, e se traduz em termos palpáveis, no fato de que as grandes empresas que encabeçaram as fusões e aquisições de telecomunicações dos anos 1990 vieram a se tornar os construtores e, consequentemente, proprietários da extensa espinha dorsal (backbone) que constitui a rede mundial da Internet. AT&T, France Telecom (chamada hoje Orange), Level 3, Congent, British Telecom, Telefônica entre outros, controlam os cabos submarinos por onde fluem os dados da rede digital mundial, bem como uma variedade de infraestruturas, ou backbones terrestres em diversos países, que a eles se conectam.

Ao observar o resultado trazido pela desregulamentação do setor de telecomunicações, expresso nas megafusões e aquisições que marcaram a tônica dos anos 1990, o senador John McCain afirmou sobre a lei de telecomunicações de 1996 promulgada nos Estados Unidos:

"The 1996 Telecommunication Act has failed miserably and has left us with results that are the exact opposite of what was intended. Rather than promoting competition in the industry, the Act has led to a flood of megamergers". [5]

A estrutura das telecomunicações a nível mundial passou a ser composta não mais por monopólios nacionais, mas por grandes capitais internacionais que transpuseram suas fronteiras para reafirmar a diferença de forças dentro da relação Norte-Sul global. No Brasil, duas empresas de capital estrangeiro somam juntas, hoje, cerca de 60% do acesso à Banda Larga no país.[6]

Considerando a presença do capital oriundo do norte global sobre as infraestruturas de telecomunicação nos países "em desenvolvimento", é possível vislumbrar indícios de uma eventual relação entre a condição pretérita de colonização dos países em desenvolvimento com a contemporânea atuação das empresas de telecomunicações oriundas de países desenvolvidos, dentro de uma tendência a usufruir das heranças linguístico culturais deste passado colonial. As figuras abaixo foram retiradas dos sites das empresas Telefônica[7] e Orange[8], as maiores em telecomunicações e serviços de Internet em seus países, Espanha e França respectivamente, cuja incidência locacional faz rememorar tanto os mapas temáticos de colonização da América Latina quanto a colonização africana mais recente.

                              

Observar a correlação coincidente entre as empresas que fazem o provimento das infraestruturas de telecomunicações bem como dos serviços de acesso a Internet tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento, é um ponto suficientemente significativo para finalizarmos deixando uma questão adicional, nos demandando se as disparidades técnicas que diferenciam qualitativamente os espaços do globo, no que tange as assimetrias de fluidez digital, são um reflexo exclusivo de suas condições internas ou se manifestam-se como resultado conjugado a relações externas, que se valeriam da lógica de desenvolvimento desigual e combinado para a conformação de um sistema-mundo, cuja reprodução econômica assentar-se-ia sobre as (des)vantagens das diferenciações informacionais dos territórios. Afinal, como afirma Raffestin, a informação está no centro de todas as políticas[9]

 

[1] SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Edusp, 2004.

[2] KURBALIJA, J.; GELBSTEIN, E. Governança da Internet: Questões, Atores e Cisões. DiploFoundation, 2005.

[3] Ibid., p. 39.

[4] SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 6. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.

[5] Extraído de: Warf, B. Mergers and Acquisitions in the Telecommunications Industry. Growth and Change, Vol. 34, No. 3 , p. 321-344, 2003.

[6] Dados da Anatel: http://www.anatel.gov.br/dados/component/content/article?id=269

[7] Fonte: http://www.telefonica.co/en/donde-estamos

[8] Fonte: http://www.orange.com/fr/A-propos/Presence-mondiale

[9] RAFFESTIN, C. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993.