O K da questão: por que o k-pop incomoda tanta gente?

O K da questão: por que o k-pop incomoda tanta gente?

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Se você, como eu, está na casa dos quarenta, sabe o quanto da sua formação passou em alguma medida pela produção cultural vinda do Oriente. Provavelmente na infância você assistiu a alguns dos primeiros tokusatsus (séries de heróis do Japão) que fizeram sucesso no Brasil. Isso vai do Spectreman ao Jaspion. Aqueles mais experientes e que têm memórias afetivas do National Kid também são bem-vindos.

Em seguida vieram os animes, os mangás, os JRPGs e o cosplay. Grandes chances de que uma parcela importante da sua formação cultural na infância e na adolescência seja derivada de obras japonesas. Uma exceção importante nesse arsenal cultural é justamente o componente musical. Salvo em bolhas nerd muito específicas – nas quais todos sabem cantar a abertura de Neon Genesis Evangelion – a música pop japonesa não se tornou mainstream no Ocidente.

Quantas músicas cantadas em japonês já fizeram sucesso nas rádios pop da América Latina? Quantas bandas de J-pop já lotaram estádios de futebol no Brasil?

A Coreia do Sul encontrou um nicho na última década e vem explorando com perfeição essa oportunidade de exportar em escala global um produto cultural dos mais cativantes: uma música pop que arregimenta fãs nas gerações mais novas e que pode parecer muito estranha para os mais velhos.

Os mais velhos – leia-se, esses da casa dos quarenta – saltaram da infância e da adolescência em que o Japão era o alvo das atenções no Oriente para uma vida adulta em que um outro país oriental parece concentrar todo o foco: a China. Combinando um misto de fatalismo (“a China vai dominar o mundo”) com relativismo de botequim (“lá os valores são outros”), a sombra chinesa passou a se tornar um assunto inesgotável para especulações econômicas e políticas.

Nesse cenário, a Coreia do Sul pareceria um competidor inusitado para disputar as atenções globais na cena cultural. Então como foi que o k-pop se tornou esse sucesso estrondoso? Uma parte do enigma pode ser resolvido com a percepção de que esse “estilo musical” se desenvolveu a partir de uma verdadeira cultura jovem na internet. Tamanha é a simbiose entre redes sociais e o universo de ídolos do k-pop que fica difícil imaginar o sucesso dos artistas sul-coreanos sem o componente digital.

Aliás, enquanto escrevíamos esse texto, a hashtag #BanKpopAccounts ocupava a quinta posição na lista dos termos mais populares no Twitter brasileiro. A confusão do dia se deu pelo boato de que o Twitter iria banir as contas de fãs do gênero sabe-se lá por quê. Os k-poppers logo se juntaram e viralizaram um vídeo de Jack Dorsey, CEO do Twitter, em um show da banda coreana GOT7.

Kpoppers se o CEO do twitter é por nós, quem será contra nós???#BanKpopAccounts

pic.twitter.com/HfTv01rvAX

— ᶜᵃˡˡ ᵐᵉ ¡૨yઽ ˙˙🐥 DAESANG’S GOT7 (@ahgasesuffer) December 9, 2019


Segundo os detetives digitais da twitteresfera, tudo não passou de uma armação dos a-poppers. Se você não faz ideia de quem são os a-poppers, fique sabendo que, segundo os fãs do pop coreano, esse é o nome que se deve dar aos fãs de pop americano. Ou seja, os outros.

Vale dar um passo atrás para entender o fenômeno. Nos anos 90 a Coreia do Sul saiu de uma ditadura militar e implantou um governo civil. Nessa década, a economia do país decolou na carona de indústrias que apostavam nos campeões nacionais. A sociedade sul-coreana foi se tornando mais globalizada e abriu as portas para a ascensão de uma cena pop que ultrapassava fronteiras.

A explosão do k-pop veio nos anos 2000, justamente quando, pelo mundo afora, gravadoras amargavam prejuízos com a crescente pirataria na internet. Esse era o momento em que comprar CDs já era coisa do passado, mas as plataformas de streaming ainda não tinham se afirmado. Cenário melhor não poderia haver para uma música que surgiu como a combinação perfeita entre televisão, sites de vídeo e redes sociais.

Os “K”s do k-pop

No livro “Kpop Live: fans, idols and multimidia performance”, a professora Suk-Young Kim, da Universidade da Califórnia, procura investigar como essa ascensão meteórica do k-pop tem relação direta com o desenvolvimento tecnológico e as redes sociais. A autora sugere que a melhor forma de entender o k-pop (e a sua relação com a tecnologia) passa pela compreensão de cinco letras “K”. Ou seja, o K, de k-pop, teria cinco significados distintos.

{Korean} O primeiro deles, obviamente, é “korean” (“coreano”, em inglês). A afirmação de que o estilo de música pop presente nas obras de grupos famosos como BTS ou Monsta X é coreano diz muito sobre como o país se vê e como ele quer ser visto.

Antes dos anos 90 – explica a professora Suk-Young – seria impensável que a música pop da Coreia pudesse ganhar o mundo. Essa transformação não pode apenas ser reputada à visão estratégica de que havia uma oportunidade a ser preenchida no pacote de produtos culturais que o ocidente consumia dos países asiáticos.

Antes de PSY estourar por essas bandas com Gangnam Style em 2012, artistas de k-pop já dominavam o mercado asiático. Não tardou para que o governo sul-coreano começasse a patrocinar eventos de k-pop, misturando propaganda governamental com a oportunidade do público de ver seus ídolos de perto.

É interessante perceber que a professora Suk-Young, antes de se dedicar ao pop sul-coreano em seu livro mais recente, havia justamente estudado a dinâmica das grandes performances artísticas da Coreia do Norte, essas sem dúvida alguma amplamente suportadas pela máquina estatal.

O k-pop vibrante que vemos hoje não deixa de ser, em alguma medida, parte de uma visão de governo e de país, que entendeu que através da música ele pode se comunicar e construir um verdadeiro soft power. Junto dessa lógica ingressou uma dinâmica tipicamente empresarial, com grupos de k-pop sendo gestados, lançados e substituídos com enorme velocidade por algumas poucas e grandes produtoras.

{Kaleidoscope} O segundo K diz respeito à multiplicidade de plataformas e de estilos que cabem dentro do k-pop. Ele é um verdadeiro caleidoscópio. A globalização econômica e a expansão da internet tornou ritmos musicais de diferentes países acessíveis a um par de cliques. Inspirações e cooperações musicais ficaram assim cada vez mais fáceis e o k-pop, que já estava pronto para ser exportado, encontrou nessa diversidade uma forma direta de comunicação com públicos dos mais distintos. São tantas as recombinações possíveis que fica difícil escolher exemplos. De qualquer forma, vale deixar aqui um dos últimos hits da boy band Super Junior. Apelando para uma sonoridade latina, “Lo Siento” parece às vezes ser uma tentativa de fazer um reggaeton sul-coreano.

A multiplicidade não é apenas de ritmos, mas também de plataformas. Engana-se quem pensa que o k-pop é apenas o fruto de uma geração de nativos digitais e suas interações na internet. A televisão tem um papel importante no lançamento de novos ídolos e grupos, já que muitos dos artistas de maior sucesso começaram como competidores de reality shows.

Enquanto nas bandas de cá é raro ver um vencedor de American Idol ou The Voice despontar para valer no cenário global, os vencedores dos programas coreanos parecem já ter os dois pés fincados no estrelato. Os clipes dos programas são avidamente compartilhados em redes sociais e em sites de vídeo, ao passo que os vencedores passam já a ser assessorados por uma das grandes empresas produtoras de talentos.

Dessa forma uma plataforma leva à outra: o reality da televisão gera o clipe que é postado no site de vídeo, a partir do qual se fazem os GIFs que vão povoar as redes sociais. Temos muito a aprender sobre produção em multiplataformas com a experiência do k-pop.

Uma outra faceta do caleidoscópio do k-pop, e que a autora vem explorando depois do lançamento do livro, é o alargamento da faixa etária de fãs. Em entrevista para o podcast Switched on Pop, a professora Suk-Young defende que o gênero parece se destinar cada vez mais para os “kidults” (ou seja, adultos que se interessam por aquilo que tradicionalmente se entende como destinadas ao público infantil). Não é difícil perceber esse apelo no video de “Bar Bar Bar”, das meninas do Crayon Pop.     

Se os videos de k-pop fazem muito sucesso com um público mais jovem, o caleidoscópio pode também trazer elementos que instigam uma certa nostalgia nos fãs mais velhos. Lá atrás, em 2009, as Wonder Girls estavam no topo das paradas (aliás, que expressão antiga!) com um video que remetia diretamente à estética das Supremes e à época de ouro da Motown.

Os grupos de k-pop da primeira década desse século abriram o caminho para o sucesso global dos artistas de hoje. A maioria desses grupos não está mais em atividade (é o efeito Kleenex), mas muitos fãs acompanham o pop sul-coreano desde então. Esse é mais um desafio para o caleidoscópio de estilos e linguagens do k-pop: saber agradar aos fãs mais novos e àqueles que, já adultos, seguem a cena por décadas a fio. 

{Korporate} O terceiro K é uma brincadeira com o aspecto corporativo da cena k-pop. Uma parte importante das bandas e ídolos famosos é derivada do trabalho desenvolvido por três produtoras: a YG Entertainment, a JYP Entertainment e a SM Entertainment (as “big 3”). Essas gigantes cuidam da carreira dos artistas e, dada a sua influência na mídia coreana, viram alvo frequente de críticas dos fãs quando alguma controvérsia acontece.

A relação de amor e ódio não é brincadeira. Recentemente um escândalo que levou dois artistas a serem condenados por estupro reacendeu a discussão sobre como a imprensa trata os casos envolvendo os ídolos (já que um terceiro artista acabou inocentado depois de nove meses de especulações, boataria e bate-boca nas redes sociais).

A noção de que a música segue uma orientação da produtora faz com que alguns fãs acabem por preferir uma empresa ao invés da outra. Se é verdade que todas as atenções estão voltadas para as big 3, pode acontecer de um grupo fazer muito sucesso através da produção de uma empresa fora desse circuito. Esse é o caso do BTS (produzido pela Big Hit), o que faz com que os fãs do grupo vivam em pé de guerra com os fãs de outras bandas produzidas por alguma das três grandes. Nada mais paradoxal quando se percebe que a própria Big Hit adota o lema “Música e Artistas para o Bem-Estar” (“Music and Artists for Healing”). Em sua página a empresa se compromete a “confortar e inspirar pessoas ao redor do mundo através das nossas músicas e artistas” e a “se tornar uma companhia que promova conteúdos que possam levar o bem-estar ao dia-a-dia de todos que amam música.”

{Kleenex} O quarto K é uma homenagem à marca de lenços de papel (“Kleenex”) e revela a velocidade com a qual um artista de k-pop pode ser alçado ao estrelato e rapidamente descartado. Esse rodízio de músicas e de artistas, se por um lado confere dinamismo, por outro vem ganhando notoriedade por casos de suicídio e transtornos psicológicos experimentados pelos ídolos. É verdade que essa característica não é uma exclusividade do gênero, mas os seus condicionantes sociais não devem ser menosprezados.

Aqui entra em cena não apenas características típicas da sociedade coreana, como também uma dificuldade compartilhada por todos, já que estamos longe de entender os efeitos decorrentes dessa aparente proximidade entre fã e ídolo nas redes sociais e como a exposição aos comentários dos mais diversos (da idolatria ao ódio) pode mexer com a pessoa que está atrás da tela.

{Keyboard} O último K lembra do teclado (“keyboard”, em inglês) como símbolo de uma cultura que se manifesta na internet através do compartilhamento em redes sociais. Como falamos, o k-pop é o resultado da união perfeita entre televisão, sites de vídeo e redes sociais. Surgido no momento em que o mundo repensava os meios para se escutar música, o k-pop deu grande ênfase aos clipes musicais (os “MV”s) super produzidos.

Considerando que uma base expressiva de fãs de k-pop não fala coreano, o vídeo das músicas se torna ainda mais importante, já que com ele surgem os cenários, as coreografias e o figurino dos artistas. O k-pop é um estilo de música que depende muito do fator audiovisual para lançar tendências e conquistar novos fãs ao redor do mundo. Por isso ele é tão adequado aos tempos de YouTube e também de redes sociais, já que os clipes musicais geralmente são transformados em vídeos menores para serem compartilhados.

Surge aqui um fenômeno interessante na comunidade k-popper que são as fancams, simplesmente vídeos gravados por fãs em shows ou programas de televisão. Pequenos trechos desses vídeos são compartilhados exaustivamente nas redes sociais para demonstrar o estado de espírito de quem posta ou para ilustrar o conteúdo da mensagem. Tipo um GIF da Gretchen, só que com artistas do k-pop. A prática se tornou tão difundida que o Felipe Neto pediu para as pessoas pararem de compartilhar mensagens com clipes de seus ídolos dançando em toda e qualquer conversa.

Vou seguir bloqueando e recomendo q todos façam o mesmo. Se viu alguém usando videozinho irritante de idol dançando na timeline, denuncia como spam e bloqueia o usuário. Essa galera tá cagando a timeline do twitter com essa chatice. bjs. pic.twitter.com/2Va058Rhgs

— Felipe Neto (@felipeneto) December 10, 2019


Ele não mencionou que os videos eram de k-pop, mas o povo assim entendeu e começou a confusão.

E o Felipe tá errado? Olha como vocês simplesmente são chatos pra caralh com esses vídeos chatos que ninguém quer ver pic.twitter.com/49OGrvkVZY

— Nancy | DemiIsComing ⓢ (@paodequeijoneto) December 10, 2019


Deixando a polêmica de lado, fica fácil perceber como o fandom dos grupos de k-pop é dedicado e usa as redes para deixar claro a predileção pelos seus favoritos. Não foi de se estranhar então quando, depois de quebrar todos os recordes em 2019, o grupo BTS, ficou de fora da premiação do Grammy. O exército de fãs (que se literalmente se denominam “army”) não deixou barato. Seria mais um complô dos fãs de pop americano?

Em 2019 o BTS fez uma turnê mundial de enorme sucesso, lançou uma das músicas mais tocadas no mundo (“Boy with Luv”, em parceria com a artista americana Halsey) e só fez crescer a sua base de fãs. Os recordes quebrados nesse ano aproximam os artistas de outros ícones como Beatles e Elton John.

A esnobada da premiação mais famosa da música mundial talvez seja o exemplo mais claro de que existe mesmo um racha no mundo pop. Enquanto na internet os fãs se tornam cada mais sectários, a própria Halsey tuitou que “o BTS merecia muitas indicações. Mas eu não estou surpresa com o fato deles não terem sido lembrados. Os Estados Unidos estão tão atrás no movimento como um todo. Um dia a hora vai chegar.”

deleting and ignoring all negativity. BTS deserved many nominations. I am however, unsurprised that they weren’t acknowledged. the US is so far behind on the whole movement. the time will come.

— h (@halsey) November 20, 2019

Coincidentemente o BRIT Awards, maior prêmio da música britânica, decidiu em 2020 cancelar a categoria de melhor grupo internacional, o que novamente irritou os fãs de k-pop que viam nessa categoria uma forma de ter os seus artistas reconhecidos com premiações no Ocidente. Em entrevista recente, Simon Cowell, produtor do programa X Factor, avisou que a edição de 2020 vai buscar formar a maior boy ou girl band para competir com os astros sul-coreanos. Como disse o produtor: “é evidente que o k-pop está dominando o mundo. Agora é a hora do uk-pop.”

Vivemos uma época de nacionalismos e de comportamentos extremados na internet. O maior estilo musical em ascensão nessa década não teria como passar incólume nesse cenário. Por um lado existem os fandoms cada vez mais leais aos seus artistas favoritos (e hostis com relação aos não iniciados e rivais), em constante briga com a imprensa, e que na distribuição de amor e ódio gera impactos importantes na saúde mental de ídolos que precisam lidar com um estrelato cada vez mais fugaz. Esse é o k-pop que dá vazão à idolatria, à intolerância e à profusão de discursos tóxicos, especialmente quando o assunto é sexualidade, machismo ou depressão. Por outro, com seus vídeos super produzidos, músicas contagiantes, coreografias envolventes e multiplicidade de estilos, o k-pop carrega uma mensagem positiva e em sintonia com o que existe de melhor na vida hiperconectada. Por essas e outras, ele é um retrato perfeito da complexidade dos nossos tempos.

Não concorda?

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