De olho no dia zero do FIB 2019

Por: Ana Bárbara Gomes, Sávyo Vinícius de Morais, Leonam Bernardo, Pedro Câmara, Laura Pereira, Manu Halfeld

E assim começou o FIB 2019! O nome é dia zero, mas quem já sabe como funcionam esses eventos de governança sabe que o dia zero é tão importante quanto todos os outros momentos do evento. E esse dia zero foi bastante interessante! Cedendo espaço para a participação das organizações que se interessassem (e conseguissem pegar a vaga a tempo, né), tivemos a participação de grupos como a Rede de Pesquisa em Governança da Internet (a Rede), o capítulo brasileiro da Internet Society (ISOC), e o Centro de Ensino, Pesquisa e Inovação da FGV (CEPI-FGV) em parceria com o Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS). Mas o que rolou, afinal? E o que a gente, participantes do programa Youth, do Comitê Gestor da Internet no Brasil, achou de tudo isso? Pega a visão.

Desconferência: jovens e a Governança da Internet no Brasil – Youth Observatory

Abrindo o dia zero do FIB 2019, a “desconferência” foi conduzida pelo chefe da comissão editorial do Youth Observatory, Guilherme Alves. Outros membros do grupo estavam presentes e compartilharam suas experiências no campo da Governança da Internet. Um dos objetivos foi mostrar o trabalho realizado pelo Observatório, a exemplo de projetos como o e-book “Análise de uma juventude conectada”, o “Creating Networks” e ações como a própria desconferência, ou seja, encontros prévios aos fóruns com o objetivo de conversar com os jovens que vão participar dos eventos

Além disso, o foco consistiu em auxiliar os bolsistas e demais presentes a continuarem, a permanecerem, atuantes na governança. Para isso, os expositores conversaram com o público sobre as diversas oportunidades de obtenção de bolsas e financiamento para projetos, bem como falaram sobre algumas organizações existentes. Alguns exemplos mencionados foram: da Internet Society (ISOC), o Beyond the Net e o Chapterthon (Pollyana Rigon, ali presente, contou sobre o projeto, financiado, de ensinar professores de uma aldeia de índios Terena a utilizarem tecnologia para a publicação de conteúdos em língua terena, por exemplo); o Programa Frida do LACNIC; o NextGen da ICANN; a Escola de Governança da Internet (EGI), mais voltada para quem tem já certa experiência nos temas abordados; a submissão de trabalhos acadêmicos para apresentação em eventos ou na Rede de Pesquisa em Governança da Internet (Rede); da SaferNet, o SaferLab; possibilidades em empresas como o Google com o Policy Fellowship.

No final, os participantes foram divididos em grupos para debater de forma mais prática tópicos que viriam a ser retomados nos outros dias do evento. Entre vigilância, direitos humanos e inclusão digital, a sala ficou cheia de boas ideias e discussões.

 

III Encontro da Rede de Pesquisa em Governança da Internet

O terceiro encontro da Rede de Pesquisa em GI durou todo o dia zero do FIB e contou com diversas apresentações de pesquisadores de todo o país. As pesquisas tratavam sobre vários temas do universo da governança, como dá para perceber na imagem acima. Nós assistimos algumas dessas apresentações e foi possível perceber um pouco do que tem sido feito em termos de pesquisa acadêmica no nosso país.

Na Mesa 2, por exemplo, Priscilla Silva (PUC) e Giovanna Carneiro (UERJ e ITS Rio) apresentaram o artigo Ética e Regulação da Inteligência Artificial. Tendo como ponto de partida a constatação da ausência de planejamento estratégico no Brasil em relação à Inteligência Artificial - mesmo que ela já esteja presente entre nós, - as pesquisadoras trabalharam o sentido e a necessidade da regulação e o cenário existente em outros países. Elas recomendaram várias leituras. A segunda apresentação nesta mesa foi feita por meio de um vídeo. Maria Eduarda Carneiro, com o trabalho Direito ao Esquecimento e formação de lista discriminatória, abordou a hipótese de que a disponibilidade online de informações do histórico laboral de trabalhadores (em particular os processos movidos por eles contra antigos empregadores) seja um fator negativo na hora de procurar novos empregos.

Fonte: Ice Institute

Já na Mesa 3, Fernanda Rosa (University of Pennsylvania) apresentou seu estudo Code Ethnography: a Method for Studying Power Unbalances in Internet Infrastructure, que trouxe um ponto de vista sociológico nas relações de troca de tráfego dos Sistemas Autônomos presentes no principais IX do mundo (como o IX.br de São Paulo). Fernanda utilizou os dados públicos do protocolo BGP dentro dos IX para analisar como funcionam as redes sociais entre os players da Internet e entender as relações de poder nessas comunicações. Isso é algo parecido com o que se faz na brincadeira Six Degrees of Kevin Bacon, que mede a influência de alguém em Hollywood a partir do grau de separação até o ator Kevin Bacon. Mas aqui a brincadeira é bem mais séria.

Pedro Peres (UFPE) também falou na mesma mesa, apresentando seu estudo - intitulado “A Internet nua - a arte como portal para a nudez fotográfica no Facebook?” -  sobre a relação com a nudez feminina em manifestações artísticas nas mídias sociais, passando por aspectos como a censura sobre obras de arte praticada por Facebook e Instagram que gerou protestos. Foram levantados questionamentos sobre aspectos democráticos das políticas aplicadas, comparando também com as outras plataformas, como Flickr, Pinterest e Tumblr.

Para finalizar a mesa, Maria Cortez Salviano (Unicamp) apresentou uma análise sobre aspectos do comportamento do MBL no Twitter durante a campanha eleitoral de 2018, evidenciando as pautas mais recorrentes e comparando com as correntes ideológicas que o grupo diz seguir.

 

Formação educacional e empregabilidade: como acompanhar a transformação digital – Brasscom

O painel foi composto por Izabella Cesar Ribeiro e Evellin Silva, ambas Analistas de Relações Governamentais e Institucionais da Brasscom; por Daniel Cavalcanti, do MCTI; e por Henrique Faulhaber, Conselheiro do Comitê Gestor da Internet no Brasil. Pôde-se ver na mesa debates que se complementaram, cada um com a sua visão sobre os rumos das transformações tecnológicas no Brasil, e como essa transformação demanda profissionais para suprir a expectativa de crescimento do Brasil, e como os rumos da formação educacional estão estritamente relacionados.

Foram apresentados pela equipe da Brasscom os principais números do setor de tecnologia em 2018 e sua contribuição para a economia nacional, bem como as premências e principais demandas do setor no que tange a qualificação da mão de obra no Brasil, perpassando o diagnóstico da educação profissional brasileira atual. Após esses números foi mostrado como a falta de profissionais pode prejudicar drasticamente a transformação digital no Brasil. Na fala da Isabella Ribeiro ficou claro a preocupação em investir em mão de obra local e a necessidade de melhorar a qualidade e oferecer mais cursos técnicos e de graduação para a população, bem como incentivar a permanência das pessoas nos cursos superiores de tecnologia —  que hoje têm desistência de até 70%. Após isso, foi apresentado pelo Daniel Cavalcanti a Estratégia Brasileira para a Transformação Digital (E-Digital), do Governo Federal, elaborada no ano passado, com as novas estratégias que o governo pretende adotar, e como funciona o plano de 4 anos adotado para estimular, capacitar e melhorar a situação educacional técnica no Brasil. Foi muito boa a participação de todos os setores na mesa, e tomando uma fala do Henrique Faulhaber, “são necessárias as falas de todos os setores, tomando por base o modelo adotado pelo Comitê Gestor de Internet (CGI), pois quando sabemos como pensam os diferentes setores, podemos entender e se ajudar para que todos possamos crescer juntos”.

Empreendedorismo e Infraestrutura da região Amazônica – Bemol

Os executivos das Lojas Bemol apresentaram um panorama geral da conectividade com a Internet nas cidades do interior do estado do Amazonas. Segundo eles, grande parte das cidades contam com links de baixíssima qualidade, o que acabou dificultando o funcionamento das próprias lojas, já que o sistema de gestão da organização é todo informatizado e depende da Internet para uma boa execução.

Pelas dificuldades, inicialmente a empresa recorreu às conexão via satélite para conseguir se comunicar com as lojas situadas em cidades mais remotas. Porém, devido ao próprio clima da floresta, com altos índices de chuva e umidade do ar, a qualidade da conexão fica prejudicada e as páginas do sistemas de vendas chegavam a demorar por volta de 20 minutos para serem totalmente carregadas.

Foi aí que a empresa decidiu montar sua própria infraestrutura de rede, recorrendo a links de rádio para ligar uma loja à outra e assim conseguir comunicação entre as localidades. Além disso, a rede varejista disponibiliza conexão gratuita para a comunidade ao seu redor, o que ajuda a quem não tem Internet - ou dispõe dela em baixa qualidade - a se conectar devidamente.

Lacier Dias então contextualizou a Amazônia como um desafio às telecomunicações, onde a fibra óptica - meio mais utilizado atualmente para construção de backbones - precisa passar por caminhos hostis, longas distâncias, e depende de licenças ambientais para ser instalada. Além disso, a manutenção dos cabos também é difícil dada a grande mutabilidade do próprio ambiente, que tende a romper continuamente os cabos de dados.

Conexões via rádio também se demonstram como alternativas complicadas pelo mesmo motivo do satélite: altos índices de chuva e umidade do ar, além das altas copas das árvores que obrigam a utilização de torres muito altas. Assim, apesar de hoje amplamente utilizada na região, a tecnologia sem fio é insuficiente dada a demanda.

Por fim, a mesa levantou todas essas barreiras, juntamente com a necessidade regional de conectividade, como uma grande oportunidade de inovação tecnológica e para o empreendedorismo. Com isso, academia, governos e empresas têm um grande campo aberto para trabalhar e se desenvolver.



Capacitação no Ensino de Direitos Humanos Digitais: O Direito à Imagem – CEPI/FGV

O curso de capacitação no ensino de Direitos Humanos Digitais foi oferecido pelo Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI) em parceria com o Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS). A Oficina foi pensada para a sensibilização de atores da educação formal, informal e da educação básica a respeito do direito de imagem e, então, a proposta de que seja uma pauta incorporada às atividades educacionais dos profissionais m, de forma a serem tratadas dentro de sala de aula com uma abordagem adjacente aos temas já previstos nos planos curriculares. Mobilizando o tema com exemplo para as explicações, pretende-se fomentar o debate e fazê-lo conhecido pelos alunos, promovendo uma educação digital mais consciente e positiva. 

 Em um primeiro momento foi feita uma apresentação conceitual sobre direito de imagem, suas nuances, e a diferença entre imagem entendida como atributos físicos ou em dimensões da moral e dignidade. A metodologia utilizada mobilizou a experiência pessoal de cada participante para construir os conceitos a partir de suas referências. Em conjunto, os participantes foram convidados a partilhar histórias que conheciam e que podiam detectar alguma violação ao direito de imagem. Os grupos foram estimulados a explorar alguns casos escolhidos apontando as problemáticas de cada história, com perguntas como: A pessoa envolvida no caso havia consentido a utilização da imagem? Você acha que o atingido se sentiu humilhado? 

Na segunda etapa da oficina os participantes foram convidados a criar uma atividade que pudesse ser replicada em sala de aula e que utilizasse como exemplo os conceitos apresentados. Por exemplo, um professor de matemática, ao explicar o conteúdo previsto pelo currículo, como progressão aritmética e geométrica, poderia se valer do exemplo de que uma vez uma imagem é veiculada por plataformas online, a sua proliferação e visualização tem crescimento acelerado e potencializado, e, então, uma reflexão dos danos que isso poderia causar à imagem das pessoas envolvidas.  

Foi uma experiência de troca e construção de conhecimento coletiva que proporcionou reflexão e aprendizado para todos os participantes, que viram suas experiências de docentes servirem para embasar a formulação de novas atividades: com a inclusão de novos conteúdos e voltadas para o fortalecimento de uma cultura de educação digital. Uma cultura que prepare os alunos para exercer a sua cidadania de forma responsável, online e offline.

Oficina Violência Digital contra as Mulheres – Artigo 19

A Oficina Violência Digital contra as Mulheres, proposta pela Artigo 19, foi um espaço de conversa e troca entre mulheres e homens cujo objetivo principal era proporcionar uma troca sincera entre os participantes, seguida de dicas baseadas em experiências comuns. Interativa, a oficina começou com uma pergunta para que todos os participantes lembrassem de um caso de violência digital no Brasil, com a regra única de que os casos não poderiam se repetir. Serviu de propósito para identificarmos o problema de forma mais precisa, e notarmos que, por mais que o número de pessoas na sala fosse grande, havia ainda mais casos de violência de gênero na web. Após uma breve explicação da temática, a oficina se tornou local de partilha de experiências comuns, contando com muitos relatos pessoais, e até mesmo alguns desabafos quanto à uma certa impotência de ação contra a violência digital. A partir daí, foram compartilhadas táticas de ação para casos em que ocorre uma violência de gênero online, como a necessidade de realizar um boletim de ocorrência, a necessidade de tomada rápida de medida pelas plataformas para retirada do conteúdo e, principalmente, a necessidade latente de formação de uma rede de apoio.

 

Encontro Anual da ISOC Brasil

O encontro anual da ISOC Brasil contou com duas sessões. Na sessão 1, sobre Conectividade e Inclusão, foram apresentados os principais projetos para aumentar a disponibilidade de rede para regiões mais interiores do Amazonas, além de serem apresentadas as dificuldades envolvidas nesse tipo de processo em regiões de difícil acesso (ex: dificuldades na implantação da fibra ótica nos rios amazônicos).

Já na sessão 2, sobre Desinformação, foram apresentadas diversas iniciativas na região para o combate à desinformação e divulgação de narrativas de grupos com pouco ou nenhum poder de mídia (ex: Amazônia Real e Mídia Índia).

Foi um importante momento de integração entre os participantes, além de ser uma oportunidade para conhecer um pouco mais sobre o capítulo brasileiro da Internet Society. Destaca-se, ainda, que essa foi uma atividade extremamente marcante também pela temática de caráter mais regional, âmbito até presente em outras atividades ao longo do Fórum, mas, principalmente, no dia zero. 

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O dia zero foi um excelente pontapé para o FIB 2019. Sentimos que o modelo de inclusão de diferentes organizações (como a ISOC e a Rede) ajudou bastante no dinamismo da programação. Para os próximos eventos, fica a nossa contribuição:

Integração Local - Observamos a presença - ainda que muito restrita - de algumas pessoas da comunidade local e também novatos na governança da Internet. Justamente por perceber como essa integração é benéfica para o evento, infelizmente sentimos também que falta maior atenção à incorporação dessas pessoas. Nas próximas edições, pode ser interessante criar um evento introdutório no Dia Zero para acolher melhor a comunidade local e então poder contar com mais diversidade nas discussões.