Dia 1 do FIB – Uma imersão na GI e na cultura Amazonense

Por: Gu da Cei, Pedro Câmera, Joseph Levinthal, Isabela Inês, Laura Pereira, Diego Cerqueira, Ana Bárbara Gomes, Adriano Mendes, Roberto Peixoto

Seguindo o modelo de eventos de Governança da Internet, o FIB 2019 teve seu início oficial no dia 2 de outubro, no comecinho desse mês. Apesar das atividades em si estarem rolando desde o dia anterior, como vocês podem conferir aqui (Inserir link do post do da Zero), no dia 1 do evento ocorreu a cerimônia de abertura, as primeiras sessões no modelo de workshops e a sessão principal. No total, foram 10 sessões que discutiram Conectividade, Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, regulação legislativa e discurso de ódio, entre outros temas.  

Já pensou como rola o acesso à Internet no interior do Amazonas? Já sabe o que é discurso de ódio? E software livre?, Com o texto a seguir, nós, enquanto participantes do evento como parte do programa Youth do Comitê Gestor da Internet no Brasil, compartilhamos nossas visões sobre o dia. Venha conosco nessa dupla imersão: na governança da Internet e na cultura amazônica.

Software Livre, Audiovisual e Internet - ferramentas para produzir, circular e exibir a diversidade

Alvaro Malaguti, representante da RNP, apresentou o “Cinema em Redes”, uma rede de exibidores de cinema de Universidades e Institutos Federais que permite exibições simultâneas, compartilhamento de conteúdos e debates interativos com realizadores. O projeto tem como objetivo valorizar e ampliar o acesso ao conteúdo brasileiro, difundindo o cinema nacional em diversas comunidades, principalmente as que não possuem salas de exibição. Thaís Brito da Silva, antropóloga do Cine Kurumin, que possui experiência de festival de cinema com temática indígena, apresentou algumas ações de povos indígenas com o audiovisual e em defesa das florestas. Dentre os exemplos, consta o filme “Mekaron Opoi D’joi - Ele que cria imagens”, o qual seria umas das primeiras experiências de cinema indígena no Brasil, em que Raoni, liderança indígena ainda jovem, coloca que as imagens da floresta submersa por consequência da construção da hidrelétrica de Belo Monte sendo usadas para envergonhar os brasileiros. Ou seja, o audiovisual como ferramenta de defesa e memória. 

Farid Abdelnour, co-fundador do Estúdio Gunga, empresa e coletivo em Taguatinga (DF), falou sobre o processo de construção audiovisual antes de chegar às telas usando software livre. Foi apresentado por ele um teaser inédito da animação em 3D “Malaika”, feita totalmente com software livre e de produção distribuída por mais de 20 pessoas espalhadas pelo Brasil. Ranulfo Mendes, da Universidade Federal de Santa Catarina, fez uma análise dos últimos dez anos do setor cultural, Internet e audiovisual no Brasil. Segundo ele, em 2013, 30% da população de São Paulo nunca tinha ido ao cinema. “A melhor maneira de resistir é propondo avanços”. Ranulfo afirma que a má distribuição de renda afeta os processos de governança na Internet. Durante a sua fala, também foi dado destaque para como os recursos bilionários provindos da Internet podem ser usados para impulsionar a produção cultural brasileira.

LGPD na rotina do provedor de pequeno porte

Tivemos, durante a sessão, discussões sobre a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Ricardo de Souza, da Direitos Oficial, informou que ela será implementada no mês de agosto do ano de 2020 e apresentou um panorama histórico sobre a criação da lei - tanto o Marco Civil da Internet quanto a Declaração Universal dos Direitos Humanos já falam sobre o assunto de privacidade e intimidade. A LGPD foi aprovada em 2018 com o objetivo de proteger os dados dos usuários finais, dando responsabilidades, principalmente em casos de vazamento, para empresas que coletam os dados. Ainda sobre a lei, Anna Gardemann, da Gardemann e Vidotti Advogados Associados, trouxe algumas preocupações sobre os provedores de pequeno porte, principalmente porque a LGPD trata de proteção de dados, então, de certa forma, essa privacidade deve ser mantida desde a coleta de dados até o descarte dessas informações. O consentimento pode ser revogado pela pessoa que concedeu a informação e provedores necessitam tratar da melhor forma possível os dados, assim, um especialista na informação e controle de dados se torna muito necessário para a empresa. A LGPD foi inspirada na legislação europeia (Regulamentação Geral de Proteção de Dados - RGPD).

Karina Campelo, da Polícia Civil do Pará, comenta que pessoas físicas querem os dados protegidos e com direito à privacidade das informações, pois qualquer pessoa fica, de certa forma, vulnerável na Internet. Levanta também a discussão sobre a polícia precisar dos dados de conexões ou de acesso dos pequenos provedores, sem limitações, pois é necessário identificar a pessoa que executou o crime cibernético. Defende que a lei é um avanço, porém não pode afetar as investigações policiais.  

Por fim, temos a discussão levantada por Flávia Lefèvre, do Intervozes, sobre a proteção dos dados para setores públicos, em que reforça que essa preocupação é primordial. Por exemplo, caso a polícia precise de informações de um usuário, é necessário realizar um mandato para requisitar essas informações. O artigo 14 do Marco Civil já prevê quais informações o provedor de conexão deve coletar e essas informações são restritas, apenas podem coletar informações de logs de conexões. Como já está previsto, os dados que identificam os usuários finais devem ser armazenados durante o período de 6 meses a 1 ano.

Entre o punitivismo e a tutela: Tendências do poder legislativo brasileiro na regulação do ambiente online

A mesa foi moderada por Paloma Rocillo, integrante do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS-BH) e do Grupo de Estudos sobre Internet, Inovação e Propriedade Intelectual (GNET) da UFMG. A ideia desse painel nasceu da preocupação com os novos mandatos iniciados em 2019 e as várias proposições de regulação - muitas vezes com a criminalização do usuário - de redes sociais.

Participaram representantes de todos os setores e todos contribuíram muito para a discussão, tanto que a mesa ficou longa e tinha uma fila de perguntas. A professora de Direito da Universidade Federal de Santa Maria, Rosane Leal da Silva e Rita Lima, da Defensoria Pública do Distrito Federal, falaram sobre suas experiências e conhecimentos do tema, ambas destacando que a punição não deve ser a primeira opção de enfrentamento dos problemas. Falando mais sobre iniciativas da sociedade civil, Larissa Santiago, da plataforma Blogueiras Negras, trouxe dados para mostrar qual o perfil dos profissionais de tecnologia, no Brasil. Assim como Larissa,  Jéssica Botelho, representando o Núcleo de Estudos e Práticas em Cibercultura (NepCiber), também trouxe alguns projetos em tramitação no legislativo brasileiro. As duas discutiram, de diferentes formas, os limites e possibilidades de cada um deles.

Acesso a Internet nos municípios do interior do Amazonas

João Guilherme de Moraes Silva, PRODAM, apresentou as redes que estão finalizadas e estão sendo construídas na região Norte, entre elas: a rede da Telebrás, que foi construída para atender a área; a rede da RNP; as redes da Embratel e OI; Programa Amazônia Conectada e Programa Amazônia Integrada e Sustentável (PAIS); e os projetos das cidades digitais na Amazônia.

Edson Nascimento Silva Junior, UFAM, apresentou a infraestrutura de Manaus e da região amazônica e também um projeto para um futuro próximo da rede RNP - ampliar para mais link de 100 Gbps. A fibra óptica chegou em Manaus em 2006, mas somente em 2014 trouxe interconexões através do linhão de Tucuruí. Além da infraestrutura, Edson também apresentou a Escola Superior de Redes que busca desenvolver profissionais para trabalhar com redes de computadores e assim, realizar trabalhos nas redes da região onde atua.

Já Edgar Duarte Nogueira, Fundação Amazonas Sustentável (FAS), falou sobre a FAS, que busca desenvolver comunidades ribeirinhas. Atualmente, a FAS atende 580 comunidades. Dentre os avanços da FAS mencionados durante a sessão estão: o projeto Escolas IPTV, realizado em 2008, que levou televisão por IP para as escolas; o projeto, executado em 2011, para levar a medicina por meio da Internet às comunidades mais distantes da Amazônia; em 2012 realizaram mapeamento pelo Google StreetView; outro projeto de criação de laboratório de informática em parceria com Dicara e Cetam em 2016;  e, por fim, em 2019, um projeto para levar Internet para áreas mais distantes da Amazônia em que ainda não há conexão em parceria com a empresa Lojas Americanas.

António Azevedo, CODESE, pesquisa alternativas de modelo para evolução das comunidades na educação para o trabalho - evoluir a qualificação da população, pois a indústria 4.0 precisa de funcionários mais qualificados. Os projetos da RNP e da fibra óptica pelos rios da Amazônia possibilitam a chegada de mais educação para fazer com que as pessoas se tornem mais especializadas e com um grau de escolaridade maior e de melhor qualidade para poder enfrentar os desafios da indústria 4.0.

Fabiola de Freitas Rebelo, do Escritório de Advocacia Aldo Evangelista Advogados, comentou sobre sua atuação como advogada em locais distantes na Amazônia. De acordo com a painelista, quando existe acesso à Internet, a qualidade costuma não ser satisfatória. Apesar da importância em garantir o acesso, em muitos locais nem mesmo a Internet móvel 3G está disponível e além da disponibilidade do serviço, a presença da tecnologia pode não ser suficiente para garantir a inclusão.

Deste panorama, vemos que é muito importante a disponibilidade de Internet em todos os locais possíveis. Porém, deve ser realizado um trabalho de acompanhamento e educação do uso da Internet, pois a rede mundial de computadores não pode representar um risco à cultura ou ser utilizado para malefícios em comunidades locais.

Como ensinar direitos humanos digitais nas escolas brasileiras?

A palestra contou com uma mesa diversa, plural e competente para falar sobre o assunto. Partindo do conceito de direitos humanos digitais - aqueles direitos inerentes a cada um no contexto digital, os palestrantes trabalharam com o diagnóstico inicial que, sob muitos aspectos, as escolas não estão preparadas para lidar com questões relacionadas à Internet. A Internet ainda está, para os estudantes brasileiros, fora da sala de aula.

Dado o problema apresentado na mesa, os painelistas procuraram apresentar diversas iniciativas e possibilidades para melhorar a situação. Por exemplo, no município de São Paulo, o letramento digital e a programação ocorre em conjunto com as escolas dentro do projeto Tecnologias para Aprendizagem. Já no Nordeste, há o projeto Placamae.org, que é um projeto de educação digital e atua na região metropolitana de Recife. Outro projeto, criado pelo Google, é o Seja Incrível na Internet, que aborda segurança digital e cidadania. No NIC.br, a iniciativa Internet com Responsa visa levar instrução para crianças, adolescentes e educadores sobre o uso consciente da Internet. No norte do país, o Centro Popular de Audiovisual também tem um papel importante em associação de movimentos sociais locais. Dentro dele, tem o NepCiber - Núcleo de Estudos e Práticas em Cibercultura que desenvolve, em Manaus, a campanha do Dia da Internet Segura da Safernet. 

O público retomou a questão das limitações e problemas no ambiente escolar do Brasil. Os palestrantes ressaltaram que a Internet pode ser uma grande potencializadora de aprendizagem, ajudando de forma interativa. Através da dinâmica é possível ensinar a jovens e crianças sobre como deve ser usada a Internet de maneira ponderada e consciente. Portanto, trazer uma perspectiva sobre a questão do ensino de direitos humanos digitais é bastante importante e imprescindível para as escolas, atualmente.

Sessão Principal: Economia de plataformas: os desafios para a privacidade e a proteção de dados

O crescimento das plataformas online trouxe mudanças profundas ao que se é comercializado hoje. Se anteriormente o foco econômico era acima de tudo os bens tangíveis, e em segundo lugar alguns poucos bens intangíveis tais como direitos autorais, hoje temos que plataformas como Facebook geram fortunas a partir de dados — um bem cujo valor comercial era inimaginável apenas algumas décadas atrás. Fragmentos de informações podem ter grande impacto quando ligados uns aos outros em larga escala.

Dados são o principal insumo dessas plataformas e isso despertou debates sobre o direito à privacidade frente esses atores. Cada um dos participantes do workshop trouxe as perspectivas de seu setor sobre o assunto.

Por parte do governo, o tema principal foi a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), com reflexões sobre consentimento, anonimização e pseudonimização de dados, além das relações entre proteção de dados e crimes online. Do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas, Eduardo Nunan levantou exemplos e problemas em torno do fato de empresas explorarem os dados dos usuários sem o oferecimento de proteção ou retorno financeiro, ainda que a LGPD coloque o usuário como protagonista na gestão de seus dados.

Representando a Sociedade Civil, Bruna Martins Santos, da Coding Rights e da Coalizão Direitos na Rede, ofereceu uma reflexão: a comparação entre dados e petróleo pode não ser adequada, porque dados não são um recurso limitado e também não é limitado seu potencial de causar dados. Ela apresentou também sobre o projeto Chupadados. Os professores Marcos Dantas (UFRJ) e Rafael Evangelista (UNICAMP) falaram sobre as contradições e problemas dessa nova economia.

Carlos Novinho, Consultor SEBRAE, trouxe a perspectiva do setor privado, afirmando que o uso de dados leva ao desenvolvimento de soluções que trazem comodidade ao usuário, mas que o modelo brasileiro ainda precisa ser amadurecido.

Houve bastante interesse da plateia em participar com diversas perguntas. Respondendo sobre possíveis princípios para regulação das plataformas, o professor Marcos Dantas ressaltou que a discussão é ainda muito nova, mas é necessário saber diferenciar os tipos de plataformas, pois gera-se assim a necessidade de diferentes procedimentos. Soberania nacional, defesa da cultura brasileira, defesa do consumidor, liberdade de expressão são também elementos a serem considerados.

Novas estratégias para enfrentar o discurso de ódio na Internet

Você sabe o que é discurso de ódio? Muito confundido com a liberdade de expressão, o discurso de ódio é um termo associado ao comportamento de usuários que navegam, principalmente em redes sociais, e distribuem ódio gratuito. Fenômeno já se tornou realidade não só no Brasil, mas no mundo. Aqueles que o praticam não tem alvos específicos.  Embora muitas das vezes ataques de ódio sejam coordenados por grupos e comunidades, seu objetivo em geral é causar humilhação pública, justamente por estarem em ambientes seguros, sejam nas suas próprias residências e através das telinhas de smartphones e computadores. O ódio gratuito não é algo novo. Grupos marginalizados continuam sendo alvo, mas a rede proporcionou que o fenômeno ganhasse escala, pois há um distanciamento entre vítima e atacante que antes não existia. 

Muito se tem feito para coibir a prática: um desses caminho é por meio de criação de leis que muitas vezes atuam após a proliferação dos discursos em uma visão punitivista. Mas existem outros caminhos, e um deles são as contranarrativas, que vem no título do workshop, que atuam na prevenção, na outra ponta do regulatório. Essa abordagem é composta por um conjunto de estratégias e boas práticas para combater o ódio de forma inteligente, bem humorada e recheada de informações.

 

Figura 1- Texto retirado do site da iniciativa SaferLab do SaferNet. (http://saferlab.org.br/?lang=pt)

 O SaferLab, projeto do SaferNet, foi além. A sua cartilha composta de um conjunto de recomendações sobre como não reagir ao discurso de ódio, traz também uma extensa lista de ferramentas de como combatê-lo.

 

Figura 2- Estratégia para combater discurso de ódio. Fonte: (http://saferlab.org.br/?lang=pt

Então, o SaferLab dentro de um programa de treinamento e imersão selecionou dez grupos de jovens para receberem monitorias e desenvolver projetos que vão de acordo com tudo que falamos acima. Os trabalhos frutos dessa imersão foram dos mais diversos, desde chatbots à web-séries que contam histórias através das lentes de personagens periféricos e marginalizados. 

Preservação do conteúdo web brasileiro

Após a abertura do painel por Antonio Paulo Carretta, da Fundação Bienal, a discussão começou com uma participação remota de Moisés Rockembach, doutor em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais pela Universidade do Porto. O pesquisador fez um panorama sobre o Arquivamento da Web no Brasil e no Mundo. De acordo com ele, a necessidade de preservarmos as informações do mundo digital se dá devido ao caráter único dos dados que circulam nesse espaço. Por isso, não podemos perder todo esse recurso informacional e comunicacional contemporâneo.

Apesar disso, preservar essas informações é algo bastante complicado. Poucos países possuem iniciativas de Arquivamento da Web bem organizadas. Moisés apontou que a principal problemática em torno disso ocorre porque a estrutura dos dados que compõem a Internet é descentralizada e apresenta inúmeras hiperligações (hiperlinks). Aliado a isso, os conteúdos online são muitas vezes dinâmicos e efêmeros. É só pensar no feed de qualquer rede social. A todo momento salta algo novo na nossa tela. 

Por isso, algumas iniciativas atuam para preservar essa nossa valiosa memória digital. Uma delas é o Consórcio Internacional de Preservação da Internet (IIPC, na sigla em Inglês), fundado em 2003 e operante em mais de 45 países com o objetivo de adquirir, preservar e disponibilizar conhecimentos e informações acessíveis da Internet para as gerações futuras. Embora o Brasil não faça parte desse consórcio, desde 2017 temos o Núcleo de Pesquisa em Arquivamento da Web e Preservação Digital, coordenado pelo professor Moisés Rockembach, que investiga as características do Arquivamento da Web no nosso país e sua relação com iniciativas internacionais.

Em seguida, foi exibido um vídeo sobre a experiência portuguesa de arquivamento. Daniel Gomes, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia de Portugal, apresentou o Arquivo.pt, um banco de dados que funciona como uma fonte de informações para a comunidade lusófona. O serviço permite pesquisas em versões digitalizadas de jornais e gazetas que já foram extintas e em páginas da Web que não se encontram mais disponíveis, algo bastante comum de acordo com o pesquisador: cerca de 60% dos sites desaparecem após apenas 2 anos.

O consultor e pesquisador Aquilles Alencar Brayner, que falou em seguida, também relembrou a importância de preservarmos esses conteúdos que são perdidos diariamente. Ele ressaltou o papel democrático de uma organização que oferece gratuitamente o acesso a mais de 384 bilhões de páginas arquivadas, o Internet Archive

Logo após, Diogo Cortiz, do NIC.br, falou sobre o famoso “Error 404”, o código de resposta HTTP que nos informa que uma determinada página da Web não pôde ser encontrada ou não existe. Daniel abordou estratégias para evitar a ocorrência do erro, como a configuração de uma resposta padrão que explique o motivo do sumiço da página; seja por uma decisão pessoal, judicial ou pelo simples fato da página não existir.

Por fim, Mariana Valente, do InternetLab, falou sobre as perspectivas jurídicas do Arquivamento na Web, e sinalizou que a maior parte dos conteúdos que encontramos na Internet são protegidos por direitos autorais. Por isso, para o arquivamento de conteúdos na Web é preciso sempre levarmos em conta a proteção desses dados e a privacidade dessas informações.

Perspectivas para o legado digital pós-morte

O painel sobre legado digital pós-morte começou com uma rodada de breves explanações dos painelistas sobre sua atuação na área de legado digital pós-morte. Em seguida, houve um momento mais dinâmico, composto por várias perguntas e discussão do público presencial e online. 

Cristiano Maciel, da UFMT, fez considerações sobre o evento morte na vida humana e a possibilidade de imortalidade virtual. Ressaltou a importância de se pensar em estratégias para se lidar virtualmente com esse evento inerente a vida de qualquer pessoa. Por fim, apresentou o projeto DAVI - dados além da vida.

Em seguida, Sônia Moreira, representante do setor governamental, explanou os procedimentos e implicações legais do evento morte e a importância do registro formal dela. 

Já Arilo Claudio Dias Neto, representante do setor empresarial pela startup Méliuz, questionou de quem é a tutela jurídica dos bens digitais em caso de falecimento. As leis de proteção de dados da União Europeia não se aplicam a casos de morte, e cada país vem se responsabilizando pela regulação. Já a LGPD prevê apenas o consentimento do titular para que seus dados sejam manipulados após a sua morte. Por outro lado, nos EUA já define-se um e-mail que terá acesso ao legado pós-morte. No Instagram, assim que a plataforma verifica o falecimento, cria-se um memorial, o Facebook permite que o usuário defina um herdeiro para a sua conta e o Twitter exclui a conta do usuário falecido a pedido dos familiares.

A Mônica Sztern, representante do terceiro setor pela OAB, comentou que não há nenhuma disposição legal no direito brasileiro sobre a tutela jurídica pós-morte. O Código Civil não trata de patrimônio intangível, pois quando foi criado não havia uma previsão legal da existência de bens intangíveis. Portanto, o que temos hoje é um Código Civil defasado, conforme o qual, se a pessoa não expressa em testamento, os bens devem ser partilhados entre os herdeiros. Frequentemente, os juristas precisam adaptar a lei (defasada) à realidade atual, de forma a incluir os bens digitais, intangíveis. 

Quando há impasses, a decisão é tomada pelo judiciário, originando uma jurisprudência. Para a painelista, lidar com tais impasses requer considerar aspectos multidisciplinares, através de uma discussão pública que atinja um consenso. Ainda, ela disse que o Código Civil não tem previsões sobre o legado digital. Por conta disso, muitas plataformas têm criado regulação própria, impondo muitas restrições aos usuários. Trata-se de uma espécie de contrato de adesão que a pessoa aceita, sem que haja uma legislação relacionada. 

A sessão terminou com uma rica rodada de discussão com a audiência. 

Sessão de Abertura Oficial do evento

A sessão de abertura foi iniciada pelo conselheiro Marcos Dantas, representante da comunidade científica e tecnológica no CGI.br, que discursou sobre como o Brasil, Peru e demais países da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) e a multinacional Amazon brigaram, por mais de sete anos, pelo direito da criação de sites com o final “.amazon”. Em maio, a Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números (ICANN) concedeu exclusividade do uso do domínio para a empresa de comércio eletrônico. “Não tenho dúvidas de que vamos passar o século 21 disputando palavras com a Amazon”, alerta. Marcos expôs a necessidade da criação de regras que impossibilitem o uso do domínio associado a palavras que detonem expressões da biodiversidade amazônica, línguas e dialetos indígenas, festas e manifestações culturais da região.

Marcos Dantas durante abertura oficial do FIB 2019

José Luiz Ribeiro Filho, representante da comunidade científica e tecnológica no CGI.br, abriu a mesa enfatizando os números e importância do Fórum para o desenvolvimento da Internet no Brasil. Tanara Lauschner, representante do terceiro setor no CGI.br, salientou que esta foi a primeira edição do evento com neutralização de carbono, visando reduzir o impacto do evento no meio ambiente, bem como falou sobre  a comemoração dos 30 anos do “.br”. Nivaldo Cleto, representante do setor empresarial no CGI.br, exemplificou as oportunidades para o comércio eletrônico na região Norte do país, a partir da última pesquisa TIC Domicílios. O reitor da UFAM, Sylvio Mário Puga Ferreira, pediu que o governador do Amazonas impulsione a realização de eventos na região para fortalecer o reconhecimento da cultural local. Richard Costa, representante da prefeitura de Manaus, deu destaque para a importância de uma articulação conjunta no fornecimento de Internet na região Norte do país, bem como algumas medidas que estão sendo implementadas pelo governo. Alessandra Campêlo se dispôs a colaborar com a ação legislativa para melhorar a infraestrutura de Internet no que concerne o estado amazonense. 

O governador do Amazonas, Wilson Lima, afirmou que “para que possamos proteger a floresta, primeiro precisando proteger o cidadão”, bem como o desequilíbrio nas discussões sobre governança da Internet. Por exemplo, enquanto o resto do mundo está discutindo 5G, diversas regiões brasileiras ainda estão sem acesso à luz e energia elétrica. 

Show 

Ao chegar em Manaus, há uma forte e rica presença das manifestações culturais e um resgate pela permanência das origens indígenas que são marcantes nos manauaras. Por isso, a dança e a caracterização dos povos originários nas manifestações culturais são fatores em destaque. A ideia é que, cada vez mais, possa estar presente na vida dos que habitam aquele território como de quem o visita. Assim, ao final do primeiro dia, logo após a abertura oficial, todos os participantes do Fórum da Internet no Brasil puderam prestigiar um pouco da sua cultura com um pequeno show e amostra do que é o Festival Folclórico de Parintins - festival que traz consigo a figura emblemática de dois animais: o Boi Caprichoso e o Boi Garantido.

Pensar no Amazonas é pensar no Festival Folclórico de Parintins, que é muito representativo e tem personagens centrais para a cultura amazônica. Para além dos dançarinos que estavam realizando coreografias durante a cantoria da banda, foi uma surpresa imensa para todos a presença dos dois bois durante o show. Abaixo podemos visualizar 2 imagens dos momentos em que bois apareceram. 

Apesar dos visitantes não vivenciarem essa cultura onde ela originalmente acontece que é em Parintins, ter sentido um pouco do que é essa manifestação folclórica tão conhecida pelo Brasil a fora por conta do seu tamanho e magnitude das danças, roupas e história foi extremamente significativo e marcante.

Conclusão

Chegar ao fim do primeiro dia de programação oficial do evento foi uma experiência única. Ser parte do Youth FIB 2019 nos trouxe uma imersão que supera o conhecimento técnico, pois estar junto aos jovens participantes do programa proporciona uma experiência coletiva e multicultural, onde você passa a enxergar temas e problemas sobre as lentes de outras regiões do país, afinal, nosso amado Brasil tem uma grande diversidade. Foi um enorme prazer dividir cada momento em um grupo de mais de 20 jovens entre facilitadores e participantes desde trocar ideias à imersão na cultura amazônica. Para além de painéis e workshops, o que fica para os jovens é o dever da empatia e a missão de disseminar a governança da Internet e fortalecer essa rede que se formou. Que cada jovem use esse conhecimento e atue como um ponto de difusão de conhecimento em suas comunidades. Fica nosso desejo coletivo que tudo aquilo que foi discutido no Fórum influencie positivamente o futuro dos amazonenses.