Do Estranhamento ao Fascínio

Fonte: Exposição das obras de Pablo Suáres, no Museu Latino Americano de Arte Moderna

Obra sem título de Pablo Suáres, exposta no Museu Latino Americano de Arte Moderna, em Buenos Aires

DO ESTRANHAMENTO AO FASCÍNIO: REFLEXÕES SOBRE AS IMPLICAÇÕES DO CAPITALISMO DE VIGILÂNCIA SOBRE A AUTONOMIA INDIVIUDAL

 Texto derivado da apresentação realizada painel de Tecnologias e Desenvolvimento Sustentável no 8º Congresso Latinoamericano de Ciências Sociais (CLACSO) e 1º Fórum Mundial do Pensamento Crítico, em Buenos Aires,, no 23º dia de novembro de 2018.

O problema que este ensaio pretende refletir sobre consiste, basicamente, em enteder as implicações do desenvolvimento do “capitalismo de vigilância” sobre a autonomia individual. O caminho para desenvolver a reflexão sobre a relação do capitalismo de vigilância e autonomia foi de, primeiro, entender por que, agora, os dados tornaram-se ativos econômicos relevantes e o que são os dados. O ponto de partida foi entender sobre essa economia política baseada na extração, processamento e análise de dados, que me levou ao encontro do conceito de “capitalismo de vigilância” utilizado pela Shoshana Zuboff. Não foi ela quem usou a primeira vez a expressão, mas o conheci em seu artigo, publicado em 2015, “Big other: surveillance capitalism and the prospects of an information civilization” que é, ao meu ver, um denso esforço de examinar a dinâmica de produção do valor desta economia política – que é apresentada como ‘nova’ ou ‘inédita’, própria da virada do século XX para o XXI. Neste mesmo artigo, Zuboff considera haver riscos para a democracia liberal com o desenvolvimento e amadurecimento desta economia política, onde os fundamentos da democracia liberal seriam tratadas como obstáculo à esta lógica de acumulação e o seu principal obstáculo seria a autonomia individual. Particularmente considero a afirmação muito forte e tenho resistência em concordar com ela. Não acredito, ao contrário do que a autora expressa no texto, que seja essa suposta nova evolução do capitalismo que coloque a autonomia individual em constrangimento, sobretudo à classe trabalhadora. Entretanto, acho possível que a noção de “democracia” seja esvaziada de sentido

Explico o argumento da autora.

Em resumo, Shoshana Zuboff alerta que o modelo de negócios da Google – que se consolida como o ‘modelo’ de sucesso dessa evolução do capitalismo, assim como a Ford seria o modelo para a fase anterior, da produção e consumo de massa. O modelo da Google, segundo o alerta da Zuboff, anunciado como a venda de anúncios e publicidade velaria o objetivo principal da lógica de acumulação baseada na extração e análise de dados, que seria a suposta promessa, decorrente do desenvolvimento das tecnologias digitais, de poder prever comportamentos futuros. A autonomia seria posta como um problema específico para essa lógica de acumulação pelo fato que a suposta “previsão de comportamento” está baseada em comportamentos passados. A autonomia é, com relação a estes comportamentos passados fonte de ruptura, ou de possível ruptura, de mudança de comportamento. Então, Zuboff adverte: essa lógica de acumulação baseada na vigilância irá desenvovler mecanismos que minem essa autonomia – complementaria que eles desenvolverão técnicas de “modulamento” (Sérgio Amdeu da Silveira), influenciar, mas não controlar.

Agora, a promessa de que os serviços destas empresas são ou serão capaz de fazer essa previsão, essa futurologia, se sustenta na crença que estas tecnologias digitais oportunizam a habilidade de, não apenas registrar atividades cotidianas e armazena-las, mas de processa-las e que, devido ao imenso volume registros – que se ampliam ao passo que estas tecnologias em sua forma de dispostivos eletrônicos ou na sua forma de linhas de códigos esscritos ocupam funções cotidianas – poderiam antecipar comportamentos futuros. Atualmente existe uma infraestrutura global visando a ampliação da capacidade de registro, coleta, armazenamento e processamento de dados sobre o cotidiano. Para alguns autores a ampliação dessa capacidade implica na alteração de um paradigma sobre como compreender as relações sociais. Viktor Mayer-Sconberger e Kennet Cukier (2013) são quem melhor expressam o entusiasmo sob este novo paradigma – ao menos em sua publicação de 2013, entitulada “Big Data: A Revolution That Will Transform How We Live, Work, and Think”. O “big data” é a face, a ideia que representa parte desse paradigma, segundo Mayer-Sconberger e Cukier, “[p]erceber o mundo como informação, como oceanos de dados que podem ser explorados cada vez mais com mais fôlego e profundidade, nos oferece uma perspectiva da realidade que não tínhamos antes” (2013, p.67).

A constatação desse volume de dados registrados coloca, assim, a ideia que a realidade, em seus detalhes e complexidades, está, como nunca antes, capaz de ser mensurada e medida com a precisão empírica sem precedentes. Assim como a “imagem” para a “fotografia”, segundo a “Filosofia da Caixa Preta” de Flusser. “[As imagens capturadas na fotografia tem o] propósito de serem mapas do mundo, mas passam a ser biombos. [A pessoa] [o] homem, ao invés de se servir das imagens em função do mundo, passa a viver em função de imagens. Não mais decifra as cenas da imagem como significados do mundo, mas o próprio mundo vai sendo vivenciado como conjunto de cenas” (FLUSSER, p.07). O que são tratado como “dados” hoje são, em analogia a “Filosofia da Caixa Preta”, a “imagem” da fotografia.

Portanto, assim como na reflexão sobre o que as relações e trocas na sociedade produzem e produziram de significados e sentidos para a “imagem” fotogŕafica, cabe reflexões similares sobre os “dados”. Para faze-lo, buscamos um trabalho anterior da Zuboff, de 1988, “Age of The Smart Machine”. Em seu trabalho, como ela mesma explica na apresentação deste livro, diz que a motivação original do seu livro foi em querer entender como que as alterações históricas sobre o modo de produção de uma sociedade afetam o ‘cotidiano’ destas mesmas sociedades. Em trabalhos de pesquisa, segundo ela, ela encontrava descrições de alterações de “rotinas” e de “comportamentos” das pessoas, mas não identifica a análise sobre essas experiências no seu íntimo: aquilo faz as pessoas rirem, indignarem-se.

Neste trabalho, inciado em 1975 e concluído em 1985, ela acompanhou a rotina de trabalho em uma fábrica de celulose, um escritório de seguro odontológico e um banco. Durante esse tempo ela acompanhou a incorporação de sistemas computacionais para organizar a divisão do trabalho nestes locais e, nesse processo, entrevistar seus trabalhadores e trabalhadoras.

O ponto de partida da autora é que o corpo é um importante elemento sensorial. Por meio do corpo capturamos informações do ambiente em que estamos e das atividades que realizamos. Nossos sentidos são um dos aspectos chaves: visão, tato, paladar e olfato. Segundo o argumento da autora, o trabalhador-artesão desenvolveria o conhecimento sobre seu trabalho, sobre o seu ofício, a partir do exercício prático da realiazção de seu trabalho. Os seus sentidos, por meio da prática, capturariam informações sobre seu trabalho e por meio destas informações o trabalhador constituiria o conhecimento sobre seu ofício. O desenvolvimento prático deste conhecimento transforma-se em um processo íntimo do trabalhador, cujo registro desse processo ficam no próprio corpo: postura, forma de caminhar, musculatura, lesões, calosidade, entre outros. Este processo ocorre em um paradoxo: ao mesmo tempo em que o conhecimento sobre o trabalho ocorre pela exposiçaõ do corpo ao desgaste, a preservação do corpo ocorre pela construção deste conhecimento, precisando, portanto, submeter-se ao desgaste para proteger-se.

Nos casos que Zuboff (1988, pp.03-07) analisou, por exemplo, a fábrica de celulose a autora percebeu, por parte dos trabalhadores a constante referência aos sentidos corporais para buscar explicar à pesquisadora os processos e etapas no tratamento da celulose, embora não limitando-se a eles, evidentemente. Então, seja pelo tato, visão, olfato e paladar, o corpo do trabalhador servia como sensor de informações do espaço de trabalho: temperatura das caldeiras; coloração da celulose; odor e sabor emitido do processamento da celulose. A partir destas informações, somado ao tempo de dedicação a execução das tarefas, o trabalhador produz um conhecimento próprio do trabalho que ele realiza. A depender da temperatura, por exemplo, que o trabalhador sentia ao se aproximar da caldeira, somado a coloração da celulose sendo processada e do odor emitido, ele induzia sobre a necessidade de transferir a celulose para a próxima etapa de processamento. Este conhecimento não fica registrado em lugar algum e apenas se manifesta na execução da própria ação do trabalhador (Idem, p.175). Ainda assim, a construção deste conhecimento fica impresso no corpo do trabalhador, em sintomas decorrentes do desgaste físico e exposição às substâncias do próprio trabalho: dores musculares; queimaduras; perda de visão (Ibidem, pp.62-63). Nos escritórios de seguros o papel do corpo enquanto elemento sensorial tem função similar, diferenciando-se pelo fato que as tarefas estariam voltadas ao desenvolvimento de conhecimentos a respeito de habilidades interperssoais, por exemplo, a partir de gestos corporais, o tom das vozes em uma reunião, expressões faciais, postura e forma de caminhar (Ibidem, p.106; p.175).

As máquinas construídas a partir das tecnologias digitais, assim como as tecnologias anteriores, visavam a disciplina do corpo e a extração do conhecimento do trabalhador. Além de automatizar a execução de tarefas, a tecnologia digital, diferente das demais, informa sobre as tarefas executadas através da produção de um “texto eletrônico” (Ibidem, pp. 10-11). A informação antes capturada pelos sentidos do corpo do trabalhador e processadas por ele a partir da experiência prática do seu trabalho, agora é traduzida na forma, padronizada, de “texto eletrônico”. Ao se incorporar estas tecnologias na organização dos espaços de trabalho, cria-se um ambiente “informatizado pelo texto eletrônico”, onde o corpo, com relação ao ambiente de trabalho anterior, torna-se “estranho”, torna-se “ausente”, pois os sentidos corporais não são quem, agora, capturam a informação sobre as atividades, agora são os sensores da máquina. A máquina que captura e processa as informações – segundo entrevista dos trabalhadores, nas palavras deles, é ela quem “pensa” – e o trabalhador se vê estranho a própria tarefa, como um espectador ou mais uma peça desta nova máquina.

Contudo, em termos históricos, este conjunto de fenômenos foram analisados na transição da década de 1970 e 1980, quando a incorporação de computadores nos espaços de trabalho estavam inciando. Em outras palavras, a análise reproduzida aqui, nas linhas acima, se deu em um contexto onde a ubiquidade destas tecnologias – seja pela massificação dos celulares ou pela expansão da infraestrutura da internet – não existia.

Atualmente, talvez, com o uso cotidiano de celulares e aplicações que rotinizam atividades cotidianas nossas e, de certo modo, atribui-se certa autoridade ao funcionamento das aplicações que utilizamos – mapas, transporte nas cidades, refeições, interações e trocas sociais – o “estranhamento” que os trabalhadores e trabalhadoras, analisadas por Zuboff, sentiram, não esteja mais ali na forma de desalento. O “estranhamento”, talvez, seja compensado com promessas de “comodidade” e “conveniência” no desenvolvimento destes serviços, acompanhado de uma sensação de “fascínio” e, por ainda “estranhar”, a reificação da crença na capaciade das empresas que operam esses algoritmos em compreender a realidade com precisão.

Daí vem a questão a questão sobre a ameaça à autonomia das pessoas.

Ao considerar que empresas como Facebook, Cambridge, Google entre outras, são capazes de modular as preferências humanas de seus usuaŕios, justamente por serem capaz de encapsular a realidade cotidiana em seus algoritmos, reafirma-se a impossibilidade de resistir a esta capacidade destas empresas. Afinal, se estas empresas são capazes de definir as preferências das pessoas nas eleições ou em plebiscitos, onde fica a validade do exercício da autonomia nas ações que disputam esses processos políticos? Extressando essa linha de raciocínio, supõe-se que ganharão eleições e ganha plebiscitos aquele campo político cujos atores forem capaz de melhor manipular e manusear estas técnicas.

Não se trata disso. Trata-se, antes de mais nada de melhor compreender como funcionam estas tecnologias são utilizadas para realmente entender suas influências e implicações sobre esses processos. Algo que o relatório, “Democracia desestabilizada?”, da Information Comissioner’s Office do Reino Unido, busca entender, mapeando quem são os atores que integram o mercado de dados que, por sua vez, compõe parte dessa economia política baseada em dados e que é marca do presente momento. Assim, penso, que o desafio colocado, fazendo referência aos argumentos de Kate Crawford, não reside tanto sobre se estas empresas, de fato, são capazes de fazer o que dizem que fazem, mas, sim, se, a partir do que elas dizem serem capazes, se elas ameaçam de esvaziar o sentido de ideias caras à democracia em função de potencializarem uma noção de impotência quanto à resistência e mudança contra a atual ordem estabelecida.

REFERÊNCIAS USADAS

 

 

CRAWFORD, Kate. DARK DAYS: AI and the Rise of Fascism. In: SXSW 2017, Austin, Texas, EUA. Anais... Austin, Texas, EUA: South by Southwest, 2017. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Dlr4O1aEJvI&feature=youtu.be&t=1668>

FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Editora Hucitec. São Paulo. 1985

ZUBOFF, S. In the Age of the Smart Machine: The Future of Work and Power. Nova Iorque: Basic Book Inc., 1988.

ZUBOFF, S.. Big other: surveillance capitalism and the prospects of an information civilization. Journal of Information Technology (2015) 30, pp.75-89. Palgrave Macmillan