Tablets e Inovação no Brasil

A notícia sobre a construção de uma fábrica chinesa de tablets no Brasil e a isenção de impostos para os aparelhos produzidos no país deixou muitos entusiasmados com a possibilidade de redução dos preços dos produtos. Apesar disso, talvez o mais importante neste anúncio seja a eventual esperança que a fábrica materialize no país dois modelos de inovação e desenvolvimento que o Brasil almeja: o do Vale do Silício e o chinês. O modelo de inovação tecnológica no Vale do Silício baseia-se em dois grandes pilares: altos investimentos governamentais em pesquisa e inovação e formação de mão de obra qualificada. A região desenvolveu-se em torno da Universidade de Stanford, pois a presença de pesquisa de ponta e abundância de mão de obra – fatores fundamentais para o aperfeiçoamento das tecnologias e a futura expansão dos startups – são peças-chave deste modelo. No outro extremo, William Alford, de Harvard, na obra “Roubar um livro é uma ofensa elegante” (cujo título é a tradução de um ditado chinês) explica como o conceito de propriedade intelectual é estranho à cultura chinesa. Esta cultura de permissão da imitação tem sido apontada como o importante fator do desenvolvimento tecnológico no país. O acordo feito pelo Brasil, que requer transferência de tecnologia de produção e investimento em pesquisa e desenvolvimento em troca da isenção fiscal, acerta por incentivar o desenvolvimento e inovação local. Contudo, é ingênuo achar que o modelo representado na fábrica pode indicar o início de um processo de desenvolvimento tecnológico semelhante ao chinês e ao americano. Se não se pode contar nem com a estratégia de imitação que possibilitou o crescimento chinês – pois os tratados de propriedade intelectual não o permitiriam -, e esperar de mãos atadas que o governo amplie os investimentos em pesquisa nas faculdades não é uma opção, deve-se experimentar com novos modelos que permitam pular etapas do desenvolvimento. Uma opção é a pesquisa em inovação pelo usuário feita por Eric von Hippel, do MIT. Ele identificou que grande parte da inovação realizada em diversas indústrias, desde software até equipamentos esportivos, é desenvolvida pelos usuários finais e não pelos laboratórios de pesquisa. A inovação focada no usuário implicaria a revisão das leis de propriedade intelectual, mas em contrapartida possibilitaria uma democratização do aprendizado tecnológico e da inovação sem precedentes. Bruno Magrani, mestre por Harvard, é pesquisador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV. * Artigo originalmente publicado por Bruno Magrani no jornal O Globo em 3 de junho de 2011. **Foto de autoria de Yutaka Tsutano, licenciada com uma licença de Atribuição 2.0 do Creative Commons e disponível aqui.