Último dia de evento, e o início de uma nova jornada

Por: Ana Bárbara Gomes, Emanuella Ribeiro Halfeld Maciel,Giovana Pertuzzatti Rossato, Juliana Gonçalves, Matheus Figueiredo Lima, Sara Cardoso de Castro,Thais Muchon Schainberg. 


Você sabe que o fim do Fórum da Internet no Brasil se aproxima quando, ao chegar no evento, vê várias malas amontoadas na entrada do Centro de Convenções do Amazonas. Não seja por isso, o dia 04 de outubro se mostrou um dos mais empolgantes, configurando um fechamento da programação geral do FIB. Nesse sentido, o público foi presentado com workshops que tentavam dar uma espécie de conclusão para uma trilha de palestras que versou, nos quatro dias, sobre Inteligência Artificial, proteção de dados, inclusão digital e infraestrutura, direitos humanos e acessibilidade da rede e os desafios impostos por uma sociedade de gigantescos monopólios digitais.

O painel que tratou sobre a inclusão de pessoas com deficiências foi um espaço importante para pautar as limitações que configuram a rede e que dificultam o acesso das pessoas com necessidades especiais ao conteúdo. As problemáticas vão desde questões de infraestrutura até questões de conscientização dos criadores de conteúdo, para que adotem práticas de acessibilidade ao disponibilizarem seu conteúdo online que sejam compatíveis às ferramentas existentes. Por exemplo, o uso de metáforas dificulta que um conteúdo seja traduzido para a língua de sinais, assim como a descrição das imagens em formato de texto é importante para que um leitor informe a uma pessoa com deficiência visual o que de fato está sendo transmitido pela plataforma. A presença de pessoas de diversos setores trouxe profundidade e diversidade às questões do painel, em especial a participação de Leonardo Gleison, deficiente visual, que relatou a sua experiência e as suas demandas como usuário da rede. Ao final da sessão, uma pessoa com deficiência auditiva fez uma intervenção expondo a sua opinião sobre o assunto. Foi um momento muito rico para a discussão, onde questões de representatividade foram evidenciadas, colocando em destaque, sobretudo, a importância do empenho do evento em prover a interpretação em LIBRAS para todos os painéis. Se queremos que a Internet seja um espaço universal, diverso e de inclusão, é preciso que nós a pensemos como tal.    

O debate sobre A Internet como agente para diminuir a diferença de gênero na área de TIC concentrou-se na participação das mulheres nessa área e apresentou caminhos a serem percorridos para aquelas que desejam encarar essa profissão. O diálogo contou com a influência de mulheres de diversos setores, que expuseram suas ações e outras estratégias voltadas para inserir as mulheres no mundo digital. Muito se argumentou sobre a necessidade de estar em constante capacitação profissional e desenvolvimento de habilidades pessoais.

O fato é que as dificuldades enfrentadas para tornarem-se profissionais nessa área começa lá na universidade, onde encontram colegas e professores desrespeitosos à sua presença, gerando sentimentos de insuficiência, é aí que tomam consciência de que a qualificação profissional não será o único dilema que irão enfrentar, mas, o fato de serem mulheres também lhes trará adversidades. Daí essa urgência em criar oportunidades e ambientes seguros de expressão às mulheres, sendo imprescindível a inclusão dos homens nesses debates.

Por fim, salienta-se que dentre as qualidades que se esperam de uma mulher nessa área profissional estão a capacidade de se reinventar em tempos de transformação digital, de agregar valor aos serviços que presta, ser participativa nos eventos de sua área, aproveitando os espaços de fala que lhe são proporcionados, sem deixar de lado seu papel na contribuição da educação digital de crianças e adolescentes, para que se possa tratar desde cedo os estereótipos de gênero, e, claro, traçar seus próprios objetivos e correr atrás de realizá-los. 

Dentre os conteúdos citados no painel, para tomar conhecimento, destacamos o estudo Women in Business 2018: saindo da teoria, para a prática, conteúdo sobre o Impacto de mulheres da IBM na tecnologia e mais informações sobre a comunidade PyLadies Brasil e a organização Laboratoria.

No painel sobre direito antitruste, defesa do consumidor e economias digitais, os principais temas discutidos foram os fenômenos das economias digitais, como APIzação da economia da Internet e efeitos em rede (disputa por usuários). Nesse sentido, a painelista Bárbara Simão (IDEC) comentou que a defesa da concorrência pode ser auxiliada através do direito antitruste, especificamente no caso de empresas que abusam de seu poder de mercado, ferindo o poder de escolha do consumidor

Já Veridiana Alimonti (Nuced) trouxe a discussão de que as grandes plataformas dependem da digitalização das atividades humanas para gerar valor. Não há um custo para migrar de uma plataforma a outra, mas os efeitos de rede (percepção de qualidade do serviço quanto mais entram pessoas) são muito mais importantes do que o preço. Assim, cria-se um custo não diretamente monetário de mudar de uma plataforma a outra.  

Flávia Lefèvre (Intervozes) defendeu que precisamos ter muita atenção com a associação entre as plataformas e os provedores de Internet, pois isso está ameaçando nossos direitos como cidadãos. Isso porque a maioria dos acessos é feita por dispositivos móveis com possibilidades muito limitadas - apenas as principais plataformas de comunicação. Além disso, os planos de franquia (ao final da franquia acessando apenas Facebook e WhatsApp) permitem as campanhas de desinformação no Brasil e um uso muito desqualificado do conceito de inclusão digital.

Por fim, Jonas Valente (UnB) disse que precisamos dar um passo atrás e entender em que contexto a economia digital está colocada. Ela surge como uma salvação à crise do capitalismo, seja no seu aspecto econômico como social. A lógica de processamento de dados das grandes empresas permite-lhes colocar pessoas em contato e ter um ativo central para sua posição dominante. Além disso, elas utilizam diversas estratégias concorrenciais, como a compra de concorrentes (WhatsApp e Instagram) ou nichos de mercado diferenciados (como compra do Android e do YouTube pela Google). 

No painel Design centrado nas pessoas e dados abertos na Web: inclusão e ética na Inteligência Artificial, um dos últimos do dia, Diogo Cortiz (NIC.br) e Jonice Oliveira (UFRJ) citaram diversos exemplos problemáticos do uso de inteligência artificial, como os softwares usados na área de saúde para auxílio de diagnóstico que acabam ignorando particularidades do público feminino, LGBT ou negro porque a maioria dos dados são de homens brancos; ou o sistema de recrutamento da Amazon que punia mulheres porque os dados históricos de trabalhadores da empresa eram majoritariamente de homens

Para Diogo, os algoritmos são neutros, o problema está nas bases de dados que utilizamos. Os dados refletem um recorte da sociedade — sociedade essa que já reproduz e alimenta diversos tipos de preconceitos. 

Na visão de Murilo Junqueira (IBM), uma das soluções para esse problema passa por processos como o Design Centrado no Usuário, em que o mais importante é que o usuário final esteja envolvido desde o começo do projeto, e que suas necessidades e contexto específicos possam ser entendidos através de pesquisa. Fernanda Campagnucci (Open Knowledge Brasil) e Eduardo Nunam (TCE-AM) finalizaram falando sobre a importância da transparência e da accountability se quisermos sistemas mais humanizados e menos enviesados. Como diz Fernanda: "sem a transparência dos algoritmos, nenhuma decisão administrativa que afeta a vida dos indivíduos poderá ser 100% automatizada". 

A Sessão Principal do dia teve como título ‘Inclusão Digital e Infraestrutura’. De certa forma, não é possível pensar que o tema fosse qualquer outro - o evento todo abordou de frente os principais desafios da região Amazônica no que diz respeito à inclusão digital e à consolidação de uma rede de qualidade para a região Norte, onde 36% dos domicílios estão desconectados. 

(Sessão Principal: Inclusão Digital e Infraestrutura)

O painel abrangeu temas variáveis, desde comentários sobre as boas expectativas para a implementação da tecnologia 5G no Brasil, quanto observações quase antagônicas sobre o polêmico PLC 79/2016, que reforma a Lei das Telecomunicações para “alterar o status do serviço de telefonia fixa, do regime público para o privado, e eliminar as obrigações de universalização, integrando os bens reversíveis —que deveriam ser devolvidos à União após o final da concessão— ao patrimônio das operadoras.” Nesse sentido, foi possível perceber uma divergência multissetorial direta entre a representação da sociedade civil no espaço, que pugnou pela inconstitucionalidade do PLC 79, em confronto com uma visão favorável abordada pelo representante do setor econômico.

A discussão proposta, que já era polêmica o bastante para fechar o 9º Fórum da Internet no Brasil deixando todos os participantes reflexivos, ganhou um grau extra de reflexão necessária quando a Coalizão de Direitos na Rede se dividiu para ler Carta Pública endereçada ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) sobre as eleições dos representantes da sociedade civil. A carta, que foi simultaneamente entregue ao público enquanto sua leitura era realizada, clama pela realização de processo eleitoral para a renovação dos mandatos dos membros da sociedade civil no Comitê Gestor da Internet de forma imediata, e pede a restauração do direito dos eleitores do terceiro setor de votarem em quatro candidatos ao invés de apenas um, como ocorrido nas eleições de 2016.

E foi assim, marcado por intervenções, que o FIB deste ano chegou ao seu fim. Um evento que não poupou esforços para colocar em primeiro plano as pautas de acessibilidade e que reforçou as dificuldades técnicas para promover o acesso à Internet na região Norte. Inclusive, são esses debates que inquietam, que nos permitem compreender a necessidade de pensar ferramentas que abram as portas de oportunidades, que democratizem os espaços e saberes. É deste desassossego que se entende a importância do programa Youth. Permitir que jovens de todo o Brasil, de diferentes áreas do saber e de várias idades, participem ativamente de um evento de relevância nacional significa garantir o real exercício de uma governança da Internet multissetorial.

Agradecimento dos Youth

Com o encerramento do evento, uma sensação de vazio começa a surgir, é chegado o momento de se despedir e voltar para casa. Entretanto, as novas ideias começam a surgir, a esperança domina os corações dos jovens e os motiva a tentar mudar sua realidade. Conexões são formadas, e o foco de atuação delas não é apenas nacional, pois a maturidade em relação a governança da Internet no Brasil faz com que sejamos exemplos na América Latina, e cria o dever de colaborar com os países vizinhos na luta por uma Internet neutra, de qualidade, e para todos.

Fechamos este texto agradecendo à Nathalia, por ter orientado todos e sempre ajudado a desenvolver as nossas ideias, além de agradecer aos facilitadores que foram como irmãs e irmãos mais velhos, ensinando o caminho a ser trilhado.