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POR: ddoneda | 0 Comentários | 05/01/2011

O IPv6 e a Internet das Coisas

Mark Weiser foi um cientista da computação que anteviu, ainda em 1988, que os computadores iriam estar cada vez mais presentes em nossas vidas, sem chamar a nossa atenção – ao que ele denominou de “computação ubíqua”, baseada em uma tecnologia “calma”.

Uma materialização desta previsão se observa hoje, devido a dois fatores principais: o desenvolvimento de sensores que podem ser incorporados com facilidade a diversos tipos de materiais e a possibilidade destes sensores manterem uma presença própria na Internet, o que é possível com a adoção do novo protocolo ipv6 – que é um imperativo para que a própria Internet continue em funcionamento.

O protocolo ipv6 aumenta exponencialmente a disponibilidade de endereços únicos para os dispositivos conectados à rede, a ponto de tornar possível a sua atribuição não somente a computadores e terminais de usuários, porém também a objetos dotados de sensores capazes de transmitir e receber informações pela Internet.

Este novo paradigma vem sendo denominado de “Internet das Coisas”, representando o fato de que a Internet permitirá cada vez mais a comunicação direta entre objetos, e não mais somente entre pessoas.

A visualização desta nova realidade é frequentemente demonstrada de forma didática pela possibilidade de controlar remotamente e com facilidade objetos como uma geladeira, um sistema de alarme ou de iluminação, por exemplo. Sua aplicabilidade, no entanto, vai muito além destas comodidades e está na base da ideia de Inteligência Ambiental (Ambient Intelligence).

A Inteligência Ambiental consiste, basicamente, na presença, em nosso cotidiano, de objetos capazes de perceber e reagir à nossa presença de forma “inteligente”. Para que esta reação seja possível, é necessário que estes objetos estejam dispostos e comuniquem-se em rede, e a Internet das Coisas é justamente a plataforma na qual este cenário torna-se viável.

Há, no entanto, diversos cenários derivados da “Internet das Coisas” nos quais deve-se levar em conta novas preocupações referentes à privacidade.

Vários dos sensores com seus próprios endereços IPv6 serão utilizados para fornecer informações pessoais a terceiros. Sensores com alto potencial neste sentido vão desde chips RFId a câmeras de vídeo (que poderão operar com maior eficiência), porém chegam até dispositivos com alto grau de intrusividade e opacidade que estão, hoje, em diversos graus de desenvolvimento, como a chamada smart dust.

A Internet das Coisas, em suma, apresenta grande potencial para transformar diversos dispositivos de vigilância e monitoramento em algo cada vez mais opaco e integrado ao nosso dia-a-dia e aos nossos objetos cotidianos. A vigilância hoje é, muitas vezes, transparente precisamente por ser exercida através de dispositivos dedicados que se apresentam como o que realmente são – tais como as câmeras de CCTV -, porém pode passar a ser realizada por objetos que serviriam primariamente a outros fins. Estes objetos podem não ser percebidos como instrumentos que realizem a coleta de dados pessoais e a vigilância. Este paradigma, que é o da vigilância “por default”, construída na própria arquitetura e que é eventualmente associado com o meio eletrônico pode, curiosamente, passar a ser também o novo paradigma do meio “físico”.

Mark Weiser, em um artigo de 1999 (“The Computer for the 21st Century”), aludia a um futuro com dispositivos computacionais que seguiriam os movimentos de uma pessoa, pela metáfora literária de um diário pessoal com cuja redação não seria mais necessário se preocupar, visto que ele “escreveria a si mesmo”. As novas possibilidades abertas pelo IPv6 e pela sofisticação de diversos tipos de sensores é, portanto, mais um dos temas que devem ser abordados por um moderno sistema de proteção de dados pessoais, que deve abranger também meios para que conceitos de privacidade sejam introduzidos no design das tecnologias que serão adotadas em nosso cotidiano.

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