A Explosão dos Dados: Mídia, Big Data e Internet das Coisas

gmf

A cada dia geramos mais dados: nossos horários, itinerários, preferências, atividades e relacionamentos são cada vez mais quantificáveis. Qual é então o impacto dessa explosão de dados - potencialmente disponíveis para coleta e tratamento – no desenvolvimento de novas mídias e na liberdade de expressão e de imprensa?

Para debater essa desafiadora questão, a CIMA (Center for International Media Assistance) organizou um painel no Global Media Forum, evento promovido pela Deutsche Welle, em Bonn, entre os dias 13 a 15 de junho de 2016. Participaram do debate Sumandro Chattapadhyay, do Center for Internet and Society (India), Lorena Jaume-Palasi, do European Dialogue on Internet Governance e Carlos Affonso Souza, do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro. O debate foi apresentado e moderado por Mark Nelson, da CIMA.

Muito se tem discutido sobre como a Internet das Coisas transforma (e transformará) a vida das pessoas e possibilitará o surgimento de novos negócios. Paralelamente a esse debate existe uma preocupação em se analisar qual será o papel da mídia ao explorar as consequências da geração desse enorme volume de dados. Além de enfatizar o recorte sobre a atuação da mídia e os impactos sobre a liberdade de expressão e de imprensa, o painel procurou ainda enfatizar questões relacionadas ao chamado Sul Global. Trata-se de um desafio adicional já que grande parte da discussão sobre Internet das Coisas ainda se dá através de uma perspectiva que privilegia as experiências dos países desenvolvidos.

Para melhor entender os dilemas envolvidos no debate sobre a governança de dados e o papel da mídia, Mark Nelson lembrou as conclusões do Pax Technica, livro de Phil Howard que apresenta as possibilidades e os perigos que a Internet das Coisas pode propiciar. Dando exemplos como aplicativos que permitem que cidadãos demandem serviços públicos, como o conserto de ruas e o cobrimento de buracos, a discussão procurou incialmente enfatizar o uso positivo dessas novas ferramentas, conectando a sua implementação com a chamada explosão de dados e a sua consequente governança.

Carlos Affonso ressaltou que a noção de Internet das Coisas pode parecer nova, mas que o atual cenário já vem sendo preparado pela junção de três elementos que ajudam a compreender os dilemas que virão pela frente. O primeiro deles é a massificação de dispositivos conectados e que se comunicam entre si, o que geralmente é referido como sinônimo da própria Internet das Coisas (ou IoT). Em adição aos dispositivos conectados, é preciso adicionar a capacidade de processar enormes volumes de dados, surgindo aqui as considerações sobre o chamado big data. Por fim, dispositivos conectados geram dados que são processados e deles são retiradas conclusões através da implementação de inteligência artificial. Dessa forma, internet das coisas, big data e inteligência artificial seriam três elementos que permitiriam analisar as peças que compõem o complexo cenário de explosão de dados.

Focando especificamente nos dados que são gerados, é preciso ainda levar em conta quatro estágios que permitem construir uma cadeia de processamento do dado. Inicialmente existe a coleta do dado e nesse estágio as perguntas que geralmente são feitas dizem respeito a quem pode coletar esse dado, se houve consentimento por parte de seu titular. Em seguida, uma vez coletado o dado é armazenado, criando assim indagações sobre as condições de segurança e até mesmo a localização desses dados (já que diferentes países podem ter diferentes condições para o armazenamento, podendo até mesmo obrigar que dados sejam armazenados no próprio país). Uma terceira etapa diz respeito ao acesso ao dado previamente coletado e armazenado. Nesse momento é preciso se questionar quem pode ter acesso ao dado e em quais condições pode o próprio titular buscar saber como o seu dado está sendo armazenado e tratado. Tratamento, assim, seria a quarta etapa, enfocando as diversas formas de utilização desse dado. Com quem ele é compartilhado? Com anunciantes, parceiros? O que pode ser feito com o dado coletado? Esses são questionamentos concernentes ao tratamento do dado.

Como um exemplo de uso positivo sobre os dados no campo da saúde, foi mencionada a criação de mapas que retratam a evolução da dengue no Estado do Rio de Janeiro, usando para isso ferramentas de big data para promover um melhor tratamento desses dados.

Sumandro Chattapadhyay apresentou uma série de casos que abordam o tema da participação na geração e desafios da governança dos dados. Tratando do tema da qualidade do ar que respiramos, Sumandro mencionou um projeto que mede em tempo real a qualidade do ar no mundo, além de uma iniciativa open-source indiana que permite que cada pessoa possa instalar um mecanismo de mediação da qualidade do ar em sua residência.

Esses exemplos permitem entender que a fixação da Internet das Coisas com os dispositivos conectados pode ocultar a camada essencial que permite a sua operação que são os dados em si. Uma vez quantificáveis, como o nível de poluição do ar, diversas consequências podem ser extraídas, como um aperfeiçoamento das políticas de tratamento da qualidade do ar, por exemplo.

Mas quem seria interessado na coleta dos dados? Entre as respostas mais evidentes que colocam o setor privado e os governos como competidores pela coleta de dados, o pesquisador mencionou a atual discussão em curso na Índia sobre a criação de restrições para o compartilhamento de dados de geolocalização. A obrigatoriedade dessa informação ser compartilhada com autoridades governamentais gerou iniciativas de oposição.

Ao trazer os governos para o debate sobre a explosão de dados, a questão da soberania logo se torna de grande relevância. Ao ser indagada como países do chamado Sul Global estão enfrentando os desafios relativos à Internet das Coisas, Lorena afirma que parece existir uma certa divisão na forma pela qual diferentes países se apropriam desse tema. Em países desenvolvidos existe uma certa percepção de que a IoT teria se consolidado para usos mais individuais, com foco em entretenimento e trabalho. Já em países em desenvolvimento que começam a implementar iniciativas de IoT, o destaque dado à sua inserção para melhoramento de questões de infraestrutura surpreende. Existe um aumento de aparições de ferramentas para melhorar a forma de plantio ou coleita na agricultura, além de diversos casos de sucesso na área de saúde. Foram dados exemplos sobre como a China tem testado tais técnicas em países da África. Ao mesmo tempo, com o desenvolvimento de planos para conectar países em desenvolvimento através de iniciativas típicas de zero rating ou acessos patrocinados mostram que a fronteira entre o público e o privado pode ser tênua.

No que diz respeito à governança dos dados e a criação de standards, Lorena lembra que estamos acostumados a ver a própria indústria criar os seus padrões, que passam a ser observados globalmente. No caso da IoT, a indústria precisa se valer de standards que foram criados de forma multissetorial e não apenas por uma específica empresa ou indústria. E essa é uma oportunidade para que os países do Sul Global possam se engajar na construção dos standards que vão guiar a evolução da IoT, ao invés de simplesmente implementar definições prontas que foram criadas e exploradas sem a sua participação.

E como a mídia é afetada por esse novo cenário? Por algum tempo se discute como a explosão de dados modifica a percepção que os veículos de mídia podem obter sobre a sua audiência. Ao final do dia, entender o seu público é uma das receitas que toda empresa busca. Mas como lidar com a situação atual em que a chave para visualizar o comportamento e a reação da audiência sobre os conteúdos passa necessariamente por outros atores, especialmente os provedores de busca e as redes sociais? A questão do controle dos dados se torna ainda mais relevante.

No que diz respeito ao conhecer melhor a sua audiência, Carlos Affonso lembrou a imagem do “filtro bolha” ou “filtro da internet”, conforme sugerido por Eli Pariser. As redes sociais poderiam (deveriam?) ser uma plataforma para que as pessoas encontrassem ali uma diversidade de conteúdos e opiniões que ajudassem a formar a sua concepção de mundo. Ao contrário, ao invés de serem uma janela, as redes sociais podem ser cada vez mais um espelho que reflete exatamente o que a pessoa pensa. O boom da customização, da personalização da experiência online, passa necessariamente pela coleta e tratamento de dados.

Como o Netflix recomenda um filme que se encaixa nas suas preferências? A partir de uma análise de grande volume de dados que mostram interesses semelhantes. No cenário de expansão da IoT vale lembrar que até mesmo dispositivos que de início seriam pouco lembrados como plataformas de coleta de dados estão ativamente coletando e transferindo dados para tratamento. Vale lembrar o exemplo das smart TVs da Samsung e o aviso divulgado pela empresa sobre os riscos de se falar assuntos pessoais em frente da TV, já que as funções de comando de voz fazem com que o som do ambiente seja constantemente captado e processado. Isso porque não estamos nem mesmo falando do caso das bonecas Hello Barbie.

O risco com a junção do tripé “IoT - BigData – Inteligência Artificial” é a criação de uma muralha em torno do indivíduo, cristalizando uma imagem sobre os seus gostos e visão de mundo que não apenas reforça preconcepções como evita o contato com a diversidade.  

Sumandro destacou que no atual cenário as empresas de mídia perderam grande parte do controle dos dados que seriam relevante para a avaliação de sua audiência. Mas, por outro lado, esse cenário oferece uma oportunidade nem sempre lembrada que é a possibilidade dos casos envolvendo aplicações de dados serem transformadas em pauta. Não se trata aqui de explorar o crescimento do data-driven journalism, mas sim perceber como as histórias por trás da aplicação de big data e IoT podem propiciar uma comunicação mais direta e acessível aos temas que realmente importam para as pessoas. O que significa ter os seus dados coletados? Qual é o impacto do tratamento dos dados? Quais dados um novo dispositivo da moda está coletando?

Essas perguntas ilustram um novo desafio para a imprensa, que deveria ver a explosão dos dados não apenas pelo lado do conhecimento aprimorado da audiência, mas também como uma questão que envolve a realização de um verdadeiro jornalismo sobre direitos humanos. Explorar as histórias relacionadas ao impacto de big data e IoT é, em última instância, esclarecer o público sobre as vantagens e os riscos envolvidos. O famoso caso da loja de departamento Target pode ser um bom exemplo, já que a implementação de big data realizada pela loja, ao possibilitar à empresa prever qual cliente estava grávida, serve de atalho para se entender os impactos da tecnologia em questão sobre a vida das pessoas.

Ainda sobre o tema da diversidade e do controle dos dados, Mark Nelson questionou como o filtro poderia reduzir a forma pela qual o conhecimento comum é distribuído na rede. A liberdade de imprensa se espelha na diversidade de opiniões e comentários que podem ser acessados pelos indivíduos.

Mas será que o “filtro bolha” da Internet é realmente o culpado por esse cenário? Lorena questionou se a filtragem de conteúdo não seria algo que acompanha a evolução das mídias. Trocamos as estações do rádio, os canais de televisão e escolhemos qual jornal ler. Não teríamos assim – argumenta – provas de que a Internet filtra mais do que instintivamente nós já filtramos o conteúdo que realmente nos interessa.

Na semana seguinte à realização do painel, o Facebook anunciou uma mudança na forma pela qual conteúdos postados na rede social aparecem no feed de notícias de seus usuários. Em um pronunciamento público, a empresa esclareceu que passaria a privilegiar conteúdos pessoais, como fotos e vídeos de amigos e parentes, em detrimento do simples compartilhamento de notícias.

O anúncio acabou pegando muitas pessoas de surpresa já que nos últimos anos a empresa vinha estimulando a criação de conteúdo original por parte de veículos de imprensa na plataforma, como através dos instant articles.

Segundo Cass R. Sunstein, a alteração proposta pelo Facebook poderia ter sido motivada por três fatores: (i) como forma de combater as críticas sofridas recentemente de que a plataforma estaria privilegiando certos conteúdos políticos e restringindo o alcance de veículos de mídia conservadores; (ii) para aumentar o número de cliques, já que se estaria privilegiando conteúdos que, a princípio, seriam de maior interesse do usuário; e (iii) para evitar a transformação da plataforma em um espaço para o simples compartilhamento de notícias (ao invés de promover a criação de conteúdos pessoais e originais).

O anúncio do Facebook se relaciona bastante com os temas abordados no painel. Em certa altura do debate, Mark Nelson lembrou do caso de um jornalista do Senegal que havia criado com sucesso uma página no Facebook para o seu site de notícias, obtendo um bom número de seguidores. Pouco tempo depois o jornalista percebeu que as pessoas estavam visualizando menos as suas publicações. Ao investigar o que teria mudado, ele percebeu que a rede social havia passado a privilegiar a visualização de conteúdos por vídeo e com isso – alegou – a sua página teria sido prejudicada.

O exemplo é interessante para perceber o papel que as redes sociais desempenham na comunicação dos mais diversos conteúdos e especialmente no que diz respeito à sua relação com a imprensa. Entender as regras pelas quais o algoritmo da rede social privilegia ou restringe o alcance de uma matéria significa cada vez mais para a presença online de veículos de imprensa. Como sugere Rafael Coimbra, as técnicas de SEO, que aprimoram a colocação de um conteúdo nos sites de busca, serão rapidamente popularizadas para as redes sociais. É o tempo dos profissionais especializados em entender o algoritmo do Facebook e que se especializam em promover conteúdos de acordo com a regra do jogo em determinado momento.

É justamente nesse cenário que as questões sobre o desenvolvimento de aplicações para IoT e big data vão se desenhando, gerando importantes impactos para a forma pela qual o conteúdo jornalístico viaja até a sua audiência. Se por um lado as redes sociais e diferentes provedores possuem um impacto global, entender como a mídia local reage e se apropria da explosão dos dados é um tema crescentemente desafiador, especialmente nos países do chamado Sul Global.

Para quem tiver interesse em se aprofundar no debate promovido durante o painel, o áudio do evento pode ser encontrado aqui.