Capitalismo de vigilância e a nova reprodução do antigo

Tempos Modernos

 

A ideia de transformação é um elemento constante nos fóruns de governança da internet. A inexorabilidade desta transformação é advertida para seus opositores, instituições e organizações rígidas e verticalmente hierarquizadas; e anunciada para seus herdeiros, os indivíduos. O anuncio da mudança, contudo, vela a face do imutável na própria transfomação anunciada, o quanto que, apesar das mudanças, certas relações de dominação e alienação continuam, embora com diferentes mecanismos.

O trabalho da Shoshana Zuboff, Big other: surveillance capitalism and the prospects of an information civilization (2015), penso, contribui para captar o quanto que a novidade anunciada nos fóruns de governança da internet tem, no seu âmago, a reprodução do “antigo”, mas ainda atual relação de exploração do capitalismo. Importante comentar que o diálogo que tento realizar com o texto da Zuboff (2015) não tem como motivação a concordância integral com a posição da autora, mas o reconhecimento do esforço dela na construção de uma análise sob outra lente interpretativa das transformações anunciadas.

Em seu artigo interessantíssimo, Zuboff (2015) analisa as implicações daquilo que ela denomina de uma nova lógica de acumulação baseada na vigilância massiva, cuja implicação é o engendramento de um capitalismo de vigilância e a inauguração de uma nova era de civilização. Para a autora, o expoente desta suposta nova lógica, a empresa Google, protagonizou um modelo de negócio que dinamiza um ciclo de geração de valor sobre as informações dos usuários dos serviços e produtos da empresa. A extração massiva de dados dos usuários, o armazenamento destes dados, seu processamento e prestação de novos serviços e produtos é, em síntese, a dinâmica de exploração e geração de valor deste ciclo.

Neste mesmo texto a faz referência a outro artigo seu onde ela conclui que o trabalho automatizado por tecnologias de informação – como os computadores – configuram uma divisão do trabalho baseado no conhecimento. “A qualidade, ao invés da quantidade, do esforço será a nova fonte de onde o valor agregado será derivado (…) o aprendizado é a nova forma de trabalho” (ZUBOFF, 1988, p.395, tradução minha). As tecnologias de informação registram os dados sobre determinado trabalho e, a partir deste registro, as próprias máquinas passam a automatizar o trabalho. O aprimoramento do trabalho realizado pela máquina – entenda-se como “produtividade” – depende do registro de mais informações que a orientem seu desempenho.

A Google, portanto, extrai o registro de dados, os armazena e processa, inicialmente, pelo seu serviço de motor de busca de conteúdo na própria rede. Por meio do provimento de serviços e aplicações, como o motor de busca, sem cobrar o usuário final, a empresa consegue extrair a sua matéria-prima – dados dos usuários de suas aplicações. A lógica de acumulação, nesse sentido, é suprida por meio da relação da Google com seus clientes que comercializam as informações extraídas e processadas pela Google através do “trabalho contratado” pela empresa e o “trabalho gratuito” (DANTAS, 2014, p.95-97).

O exemplo clássico é o algorítimo do AdWord da empresa, que orienta a disposição da publicidade dos clientes da Google em suas páginas no navegador da rede, com base no uso de palavras-chaves na busca de conteúdos pelos usuários da plataforma. Entretanto, a dimensão deste ciclo não limita-se a sua potencialidade publicitária, ela envolve uma série de outros produtos e serviços – veículos não tripulados; mordomos virtuais”; nano partículas, mapas “inteligentes”, entre outros.

Ao passo que muito das nossas trocas sociais passam a ser mediadas por dispositivos que registram informações destas trocas sociais, torna-se possível o amadurecimento e difusão de uma lógica de acumulação baseada na extração constante destas de seus usuários; de uma lógica de acumulação que se estrutura a partir do permanente monitoramento destas trocas e passa a demandá-la. Em suma, de uma constante vigilância, eis a razão da denominação de capitalismo de vigilância.

O aspecto virtuoso – ao menos assim é percebido pelos seus promotores – da coleta massiva destas informações é na reversão em novos produtos e serviços que contribuam para o bem-estar e a comodidade de seus usuários ao mesmo tempo em que mantém a coleta de dados. O processamento destas informações permite a identificação de padrões de comportamento que, por sua vez, viabiliza – em tese – a antecipação de ações. As tendências da economia, do “mercado”, bem como dos usuários ou consumidores, passa a ser mais “transparentes”, previsíveis. Diminuindo, assim, o risco da tomada de decisão política ou econômica.

O componente alarmante desta perspectiva, denunciada pela Zuboff em seu artigo, é, exatamente, a remoção do elemento que confere a origem do “risco”. O risco no processo de tomada de decisão – seja esta decisão sobre uma ação de determinada candidatura na disputa eleitoral, ou seja ela a orientação de investimento de determinada empresa sobre um setor da economia – decorre da imprevisibilidade do estado da ordem social e econômica no futuro por parte de quem toma a decisão.

Assumindo a perspectiva a partir do indivíduo, enquanto elemento constituinte da ordem social econômica, o caráter originário desta imprevisibilidade é a incapacidade de anteceder as ações dos indivíduos. Este caráter é a autonomia de ação de cada um. Portanto, a remoção deste risco, segundo Zuboff, é a anulação da autonomia dos indivíduos.

Sobre esta advertência, considero possível identificar três formas que esta suposta nova lógica de acumulação incide sobre a autonomia das pessoas: controle explícito sobre o comportamento das pessoas; controle velado sobre o comportamento das pessoas; e a incidência sobre a habilidade cognitiva.

A incidência sobre a habilidade cognitiva, penso, pode ser ilustrada pela pesquisa realizada em 2016, publicada agora em 21 de Março de 2017, na Nature Communications, demonstra o que Zuboff denomina de “acomodação”. Nesta pesquisa 24 pessoas tiveram sua atividade cerebral monitorada enquanto dirigiam um simulador das ruas de Londres. Algumas delas utilizavam um sistema de navegação, para transitar e outros não. Aqueles que não usavam o sistema expressavam intensa atividade cerebral em determinadas regiões do cérebro, especialmente quando encontravam-se diante de uma nova localização para o motorista, seja uma rua possibilitando trajetos alternativos ou uma rua sem saída. Aqueles que usavam o sistema de navegação, por sua vez, não demonstravam mesma intensidade de atividade nestas regiões do cérebro.

As considerações desta experiência seriam que a dependência acentuada de sistemas de navegações, por exemplo, reduziria a habilidade cognitiva de seus usuários em fixar trajetos mentais e, mesmo, pensar alternativas de trajetos. Esta capacidade, por sua vez, está relacionada com a memória espacial do indivíduo.

É como se o capitalismo extraísse do indivíduo habilidades manuais e cognitivas que antes lhe eram comuns. Esta é, afinal, a crítica presente no “Tempos Modernos”. Neste sentido, não há nada de novo sobre as mudanças no capitalismo de vigilância. Ainda assim, poderia-se argumentar que, embora para transitar por uma cidade o indivíduo reduza sua atividade cognitiva, ela pode ser compensada com outras comodidades e bem-estar – ficar menos tempo no trânsito

Outras formas de incidência sobre a autonomia do indivíduo seria o controle explícito sobre o comportamento, penso, está bem exemplificado em outro texto, “Privacidade, mercadoria de luxo”, de Rafael Evangelista. Nele o autor exemplifica a dimensão perversa desse modelo de negócio que não limita-se a identificação de padrões de comportamento, pela coleta dos dados, mas de modulação de comportamento de seus usuários:

Por exemplo, imaginemos um plano de saúde que, como condição para oferecer preços mais baixos, oferte ao cliente o uso ininterrupto de uma pulseira de monitoramento cardíaco. Antes, a empresa podia apenas recomendar ao cliente que se exercitasse três vezes por semanas por pelo menos 30 minutos ao dia para manter uma vida saudável pelo seu próprio bem. Com a pulseira, a sincronizar dados com os computadores da empresa diariamente, esta tem como estar certa de como o cliente se comportou, se fez exercícios ou não, verificando os batimentos cardíacos. Se o cliente não cumpriu o “recomendado” então os preços, automaticamente, sobem. O risco da empresa cai consideravelmente, pois dá preços mais altos aos sedentários, condição que ela verifica ao vigiar a que velocidade bate o coração do segurado.

Esta mesma ameaça – controle de comportamento – Shoshana Zuboff denuncia em seu artigo. O alarme que ela dispara sobre esta suposta nova lógica de acumulação capitalista consiste no poder de controle que ela confere a determinados agentes econômicos-políticos e seus riscos sobre as fundações da ordem liberal e, especificamente, a democracia liberal.

Por fim, o controle velado sobre o comportamento das pessoas está associado à discussão sobre governança algorítmica, que ocorre risco de estar sujeito a experimentos pelo uso de determinada aplicação ou plataformas.

Sobre estas três formas de controle perpassa uma outra questão que, ao menos neste artigo, Zuboff (2015) não considerou e que Primavera Di Filippi (2013), Cloud-Computing: analysing the trade-off between user confort and autonomy, pondera que é a configuração da arquitetura lógica da rede. O debate sobre a lógica de acumulação baseada na vigilância consiste em discutir o modelo de negócios da Google que, por sua vez, é um modelo de negócio que incide sobre a própria arquitetura da rede buscando uma não interoperabilidade com outras plataformas ou aplicações.

[O] princípio par-a-par também é uma importante pré condição para autonomia do usuário. De fato, o princípio estipula que a inteligência da internet deve substitir não na rede em si, mas nas suas extremidades” (DI FILIPPI, 2013, p.03, tradução minha).

Portanto, destas considerações resta analisar, como propõe a própria autora, se a lógica de acumulação vigilante manifesta tendências em tornar-se a lógica hegemônica e se ele desencadeia um novo ciclo de acumulação sistêmico. O debate sobre as formas de controle e a organização da arquitetura da rede são, talvez, importantes pontos de partida para o aprofundamento deste debate, de como o antigo se reproduz junto do novo.

Referências bibliográficas

ZUBOFF, Shoshana. Big other: surveillance capitalism and the prospects of an information civilization. Journal of Information Technology (2015) 30, pp.75-89. Palgrave Macmillan. Disponível em: < http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2594754 > Acessado em: 13 Ago.

DANTAS, Marcos. Mais-valia 2.0: Produção e Apropriação de Valores nas Redes. Revista Eptic Online. Vol. 16 n.2. maio-agosto 2014. pp. 89-112.

DE FILIPPI, Primavera. Cloud-computing: analysing the trade-off between user confort and autonomy. Internet Policy Review. Volume 02, Issue 02. 13 junho 2013. Disponível em: < http://policyreview.info/articles/analysis/cloud-computing-analysing-trade-between-user-comfort-and-autonomy > Acessado: 16 dez. 2015;