Infância aumentada

Outro dia, conversando sobre os tempos, veio à tona a ideia de que mudanças culturais, que podem ser muito rápidas, hoje estão se acelerando ainda mais. Enquanto características biológicas evoluem lentamente, comportamentos são muito mais sujeitos à pressão do momento e podem mudar radicalmente em poucos anos. Lembrei-me de uma frase do Mário Quintana: “Quando guri, eu tinha de me calar à mesa: só as pessoas grandes falavam. Agora, depois de adulto, tenho de ficar calado para as crianças falarem”. Há, até, uma teoria pessoal para justificar essa aceleração – o gradativo porém inexorável desaparecimento da figura das avós. Sim, ao menos em minha geração, as avós eram o elo, o fio condutor que transmitia a nós, infantes, os conceitos que diziam parte à formação cultural, moral e ética. “Não deixe comida no prato”, “não minta”, “criança só deve falar quando perguntada”, “se houver um idoso em pé, levante-se e ceda o lugar”, etc.

Como ainda tenho algum juízo, não entro no mérito se antes era melhor ou não, mas era diferente. Hoje, as crianças estão padronizadas pelos seus formadores, em geral terceirizados, com pouco contato com pais e menos ainda com avós, uma espécie praticamente extinta. Haverá consequências que, certamente, ainda não se consegue avaliar e só o tempo mostrará como as novas gerações vão valorar os princípios que eram caros à nossa época.

Tecnologia tem, certamente, papel importante nessa guinada cultural. Veja-se, por exemplo, essa atração por jogos. É inegável que o homo ludens sempre esteve entre nós, e com grande diversidade: desde o sonho infantil, muitas vezes inatingível, de possuir um trenzinho elétrico, ao duvidoso prazer adulto de assistir a uma luta torcendo por um dos lutadores. O esperto mercado, usando das armas tecnológicas, sabe aproveitar-se disso e lança a ludificação geral (renomeada, a meu ver de forma bisonha, de “gamificação”).

Marmanjos andam na rua à caça de monstrinhos imaginários, correndo o risco de atropelamentos, acidentes ou, simplesmente, da exposição ao ridículo. Moças ficam presas no alto de árvores buscando “pokémons”. E esses “entes” serão treinados e mimados, como se galos de briga fossem, para participar de “rinhas no éter”. Sem sangue, sem sofrimento real, mas com toda a torcida e a adrenalina gerada. Rinhas virtuais disputadas por galos imaginários e cujos donos escolhem permanecer adolescentes. Que diria Jânio Quadros, se vivo estivesse, ele que proibiu as rinhas de galo?

O rótulo dessa moda é “realidade aumentada”. Realidade virtual, aumentada, apoiada em inteligência artificial, sempre foi uma linha arduamente buscada pela pesquisa de ponta, aquela reservada aos mais corajosos e preparados. Será que o parto dessa montanha de esforços, acumulados por tanto tempo, resume-se apenas a isso? Esse ratinho? Pensando positivamente, “realidade aumentada” não deve se limitar a ser uma “infância aumentada”. As possibilidades de seu uso deveriam ser bem mais ambiciosas, incluindo educação, exploração de ambientes que só podem ser visitados virtualmente. Andarmos por dentro do corpo humano ou das crateras da Lua, usando a realidade aumentada! Parece-me uma alternativa mais atraente!