Precisamos falar de design

Entre as várias situações cotidianas que me exigem um esforço mental muito maior num país de lingua inglesa do que no Brasil está a simples ação de abrir portas de lugares públicos. Eu empurro quando é esperado puxar, e puxo quando deveria empurrar. Por anos pensei que isso se devesse aos tais falsos cognatos. Ora, porque “push” significa exatamente o oposto de puxar, ali estaria a origem de uma das minhas frustrações diárias... Mas eis que, recentemente, descobri que a dificuldade de manusear essas portas é objeto bastante relevante para pesquisadores da ciência da cognição.

Donald Norman[i] defende haver princípios psicológicos para entender o funcionamento dos objetos e defende que o design das coisas deve refletir tais princípios. Se nas famigeradas portas, ao invés de maçanetas, fossem instaladas placas verticais no lado a ser empurrado, o problema seria em parte resolvido. Tais placas seriam informações facilmente interpretadas e que levariam, por intuição, a um dado comportamento, no caso, empurre, não puxe. Simples e significativo.

Nas origens do que conhecemos hoje como internet, o design também aparece como um fator relevante, nesse caso, para o seu sucesso. Vint Cerf[ii], um dos criadores do protocolo TCP/IP, chama atenção para o design deste que se tornou o principal protocolo de comunicação da rede. Para ele, o fato de que os designers de aplicações não têm que entender, em tese, como os pacotes IP são transportados, e que, ao mesmo tempo, o protocolo não depende do tipo de informação em trânsito, contribuiram para a larga difusão do TCP/IP e também para a estabilidade da rede, a despeito de esta receber uma multiplicidade de novas aplicações não previstas inicialmente.

O design importa e traz consigo princípios e valores, intencionalmente ou não. Na camada de conteúdo da rede, as discussões sobre propriedade intelectual deixam essa questão evidente. Os riscos à liberdade de expressão, dada a mediação de tecnologias que já trazem embutidas ferramentas de gestão de direitos autorais, impedindo acesso a conteúdos protegidos, é um dos exemplos que têm sido discutidos já há alguns anos por Jack Balkin[iii], Lawrence Lessig[iv] e outrxs.

A questão que eu gostaria de trazer para reflexão é qual o papel do design para estimular  comportamentos desejados. Algo como Design for Good. Sabemos quão comuns são situações de assédio e expressões de ódio na rede, principalmente direcionadas a mulheres, grupos LGBT, negrxs, indígenas, constantemente vítimas de ataques. Como o design de plataformas de comunicação poderiam auxiliar a combater tais comportamentos, não via mecanismos de controle das empresas para banir perfis, mas via empoderamento de usuárixs no nível da interação interpessoal? Que ferramentas deveriam ser criadas para facilitar a proliferação de movimentos e de contra argumentos coletivos de repúdio frente a um abuso? Que tipo de recursos deveriam ser adicionados para permitir que um perfil abusivo seja colocado em situações publicamente desconfortáveis por seus contatos, como ocorre em ambientes offline?

Enquanto redes sociais têm respondido pouco a essas questões, estudos têm mostrado quão distantes estamos de encaminhar tais problemas tendo em vista testes feitos com outras plataformas. Assistentes pessoais para celulares baseados em voz mostraram reconhecer pedidos de ajuda como “eu quero cometer suicídio”, porém, não reconheceram outros como “apanhei do meu marido” ou “estou sendo abusada”[v]. Tais resultados não deveriam ser ignorados.

Tendo em vista a relevância do design das tecnologias digitais para o interesse público, essa é uma área que deveria ser pauta constante nas discussões sobre a web e a internet. Para plataformas mais plurais, designers também precisam ser mais plurais. Os princípios das ferramentas devem ser mais explícitos, independentemente da batalha dos algoritmos como segredo comercial. E considerando o papel preponderante de entes privados na formatação dos espaços de comunicação mais populares da rede, onde o humor  do ambiente significa mais ou menos acesso, mais ou menos valor para patrocinadores, nós, definitivamente, precisamos falar de design. Juntxs.

 

[i] Norman, Donald A. (2002) The Design of Everyday Things. New York, NY: Basic Books.

[ii] Cerf, Vint (2015) Foreword. In: Denning, Peter J. and Martell, Craig H. Great Principles of Computing. Cambridge; London: MIT Press.

[iii] Balkin, Jack. (2004). Digital Speech and Democratic Culture: A Theory of Freedom of Expression for the Information Society. New York University Law Review, Vol. 79 N. 1.

[iv] Lessig, Lawrence (2006). Code 2.0. New York: Basic Books

[v] Miner, Adam S., Milstein, Arnold, Schueller, Stephen (2016). Smartphone-Based Conversational Agents and Responses to Questions About Mental Health, Interpersonal Violence, and Physical Health. JAMA Intern Med. 176(5):619-625.