Quem bloqueia os bloqueadores?

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Você está cansado de ver tantos anúncios na Internet? Está preocupado em saber o que anúncios mais intrusivos podem fazer com os seus dados, além de seguir os seus hábitos de navegação? Então talvez você já tenha experimentado algum aplicativo ou extensão de browser que bloqueia anúncios na rede.

Mas ao lado do crescimento exponencial do uso de bloqueadores de anúncios existe um relevante debate sobre a sua regulação e legalidade em diversos países. Seria legal o uso de bloqueadores de anúncios ou essas aplicações estariam avançando sobre a liberdade de expressão comercial dos anunciantes? Como eles afetam a rentabilidade de veículos de comunicação na rede?

Recentemente o debate sobre a legalidade dos bloqueadores de anúncios foi dominado pelo tom do discurso de Randall Rothenberg, diretor da Interactive Advertising Bureau (IAB), ao afirmar que a indústria de bloqueadores de anúncios seria uma grave ameaça à diversidade e à liberdade de expressão na rede.

Em suas palavras, ele seria contrário ao uso de bloqueadores de anúncios “pela simples razão de que eles estão roubando dos editores, subvertendo a liberdade de imprensa, operando um modelo de negócio baseado na censura de conteúdo e, por fim, forçando consumidores a pagar mais por menos – e cada vez menos diversa – informação.”

Se por um lado é fácil perceber a conotação econômica do discurso (quanto mais bloqueadores menos receita de publicidade), a dimensão ligada à liberdade de expressão e à diversidade na Internet marca um momento desafiador sobre o futuro da tecnologia. O número de usuários de bloqueadores cresce, sobretudo entre os mais jovens, forçando uma reação por parte do segmento de anunciantes e de provedores de conteúdo online.

Uma das críticas é derivada da forma pela qual os aplicativos de bloqueio funcionam. Tomando como exemplo uma das aplicações mais populares, como a AdBlock Plus, a decisão sobre exibir ou não uma publicidade pode passar pelo pagamento por parte do anunciante para inserir o seu banner na lista de anúncios permitidos (whitelist).

Nem todos os bloqueadores de anúncios se remuneram dessa forma (se tanto), mas o modelo de negócio que cobra pela inserção na lista de publicidade permitida acirra o aspecto concorrencial da medida. A empresa responsável pelo Adblock Plus alega que 90% dos anunciantes que ingressaram em sua lista de permissões não precisaram pagar para não serem bloqueados.

Os tribunais alemães decidiram diversas vezes sobre a legalidade dos bloqueadores de anúncios na Internet. Em uma decisão recente, o tribunal de Munique refutou os argumentos apresentados pelo Süddeutsche Zeitung (um dos maiores jornais na Alemanha) no sentido de que a implementação de bloqueadores representaria uma interferência indevida na relação contratual entre leitores e a empresa que explora o jornal.

Outra notícia que mostra o alcance global do debate é a regulação sobre publicidade na Internet chinesa. O bloqueio de anúncios na rede poderia ser proibido de acordo com interpretação proposta sobre um artigo da nova lei sobre o tema.

O impulso para a edição da lei chinesa sobre publicidade na Internet foi incrementado com o falecimento de Wei Zixi, um jovem de 21 anos que sofria de forma rara de câncer e que buscou um tratamento experimental (que se mostrou custoso e ineficaz) a partir de um anúncio encontrado no buscador Baidu. Ao vir a público com a sua história, o jovem mobilizou a opinião pública sobre a questão das relações entre anunciantes e plataformas.

É ainda cedo para dizer qual será o impacto da lei chinesa, que entrará em vigor em setembro. De qualquer forma, ainda que um dos objetivos da lei tenha sido impedir que aplicações de bloqueio terminem por instalar malware ou direcionem o usuário para conteúdos ilícitos, a redação de seu artigo 16 leva a entender que toda forma de bloqueio de anúncios será proibida. Estaria então aberta a porta para que o governo chinês desenvolva o seu próprio software de bloqueio de publicidade ou toda forma de bloqueio seria vedada?

Não raramente, ao navegar em sites de notícias com uma aplicação de bloqueio de anúncios ligada recebe-se uma mensagem que solicita que o usuário desabilite a ferramenta ou contribua com o jornal de outras formas que não através da visualização de publicidade.

O Guardian, por exemplo, insere um rodapé no site dizendo “percebemos que você está usando um bloqueador de anúncios. Talvez você queira contribuir com o jornal de outra forma? Torne-se um apoiador por menos de 1 libra por semana.” Já a Folha de São Paulo direciona o usuário para página em que se encontra a seguinte mensagem: “Fazer jornalismo de qualidade exige recursos. A publicidade é uma fonte importante de financiamento para o jornal”.



Será possível bloquear o crescimento das aplicações de bloqueio de publicidade? A reposta passa pelo constante acompanhamento do debate global. Governos e tribunais mundo afora começam a prestar atenção nesse debate que, para o usuário, parece ser tão simples. Por trás do mero ato de bloquear um anúncio estão diversos interesses e redes contratuais.

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