Reflexão: haverá uma era de ouro para a Internet?

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Já não podemos dizer que a Internet - com quase 20 anos de operação aberta no Brasil -, ainda esteja dando seus primeiros passos ou que seja uma nova tecnologia de informação e comunicação (TIC). Governos de todo o planeta, empresas de todos segmentos e principalmente cidadãos, tanto do mundo desenvolvido, quanto - cada vez mais - do mundo em desenvolvimento, incorporaram a Internet às diversas esferas de sua ação social. Quem - para além dos folhetins de ficção científica - poderia imaginar  que o dinheiro, ou eletrodomésticos e automóveis teriam conectividade ou presença expressiva na Internet?

Hoje em dia, salvo melhor juízo, somente os loucos são saudosos de um tempo de banda estreita, de imagens pixeladas que aos poucos renderizavam no monitor. De ficar acordado de madrugada para pagar um único pulso pela ligação telefônica que nos levava aos confins da Internet; de torcer para que ela não caísse. De precisar instalar o conteúdo de um CD-ROM (depois de adquirir um kit multimídia) para acessar a Internet. De torcer para que um download de 5Mb não fosse interrompido na primeira hora de atividade.

A rede melhorou, e dessas melhorias vieram outras. Na celeridade do avanço desse desenvolvimento, sua própria história é reescrita diariamente e isso nos permite a seguinte reflexão: há de haver uma "era de ouro" da Internet como se aponta que houve para outras ferramentas e meios de comunicação?

O que torna a Internet tão peculiar é uma espécie de "virada ontológica" (ontos- do grego remete à "essência dos seres") ocorrida com as TIC a partir do final do século XX. Antes da Internet, as "ondas comunicacionais" centravam-se em objetos: a prensa escrita, o telégrafo, o rádio, a televisão, a TV via satélite, etc. Por mais que os dispositivos computacionais nos venham à cabeça imediatamente quando pensamos em Internet, o que está por trás dela é algo mais imaterial que material: é a ideia abstrata de internetworking, ou seja, da ligação de todas aquelas coisas em uma rede complexa.

Ainda que evoluam os protocolos, que mudem as tecnologias subjacentes e que variem as modalidades de dispositivos terminais interligados pela rede, a ideia de "internetworking" perdurará. É o que garantirá, em última análise, o ritmo de crescimento e expansão da Internet permanente da Internet sem que se atinja um apogeu. A esta altura, porém, um caveat é importante. Não se trata simplesmente “da rede”, nem "do homem na rede”. Mas sim de um conjunto de implicações mútuas entre uma coisa e outra, da qual dependem os rumos futuros da civilização humana como um todo. Para bem ou para mal.

Parece valer muito bem - para a Internet e o complexo sociotécnico que a circunda, que envolve as necessidades sociais, econômicas, políticas e culturais da sociedades em uma "era de ouro para a Internet" - a lição que Guimarães Rosa preferiu em "Grande Sertão: Veredas!" por meio do jagunço Riobaldo: "Tudo que já foi, é o começo do que vai vir, toda a hora a gente está num cômpito."

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Texto escrito em parceria por Everton T. Rodrigues e Diego Rafael Canabarro.
imagem que ilustra este texto foi disponibilizada por Joe Haupt e conta com uma licença do tipo CC BY-SA 2.0.