Resiliência

Foto de computador antigo

*Texto também publicado em 21/09/2015, na coluna "Por Dentro da Rede", do Blog Link (mantido pelo Estadão)*

“Quem controla o passado, controla o futuro. E quem controla o presente, controla o passado” (George Orwell, 1984). A internet será uma ferramenta de controle ou um caminho de liberdade? É uma pergunta difícil, cuja resposta dependerá de opiniões e vieses. A própria percepção que temos da rede tem sido mutante no decorrer to tempo. A evolução visível da rede pode identificar paradigmas e dar pistas para a resposta. Sua expansão significou certamente uma ruptura importante, com as que ocorrem de tempos em tempo. A internet tem cerca de 40 anos e a ruptura que provoca vai bem além da tecnológica. Uma invenção disruptiva segue, por sua vez, uma evolução gradual que busca aprimorar sua aplicação sem abandonar a essência. O automóvel à explosão, por exemplo, não é essencialmente distinto do que havia há 100 anos: trata-se da mesma ideia, para a mesma finalidade, com o mesmo suporte tecnológico básico, em constante evolução mas sem nova ruptura (mas, com certeza, mudanças radicais podem ocorrer a qualquer momento…)

É também comum que evolução sem ruptura ocorra em “espiral”: alguma característica secundária pode ser abandonada por algum tempo e voltar mais tarde, com força e em outra roupagem tecnológica, com outro nome. Isso acontece porque a tecnologia facilita o que antes era difícil, mesmo que já buscado. Na computação dos anos 70, por exemplo, o foco era o “mainframe”: aquela máquina central a que todos se dirigiam para obter capacidade de processamento. O “centro” foi sendo minado pelo processamento local, em nossa mesa, em computadores pessoais e estações de trabalho. Mas o conceito do “poder central” não morreu e, de alguma forma, é retomado agora, redivivo, com a “nuvem”, nossa nova “Meca” para a obtenção de serviços. Computação na “nuvem” é a volta ao “modelo centralizado”, mesmo que pareça imaterial?

A tendência de “volta às origens”, esse “eterno retorno”, tem um nome apropriado: resiliência, do latim “resilire”, volta ao estado anterior. Refere-se à autodefesa, uma resistência a mudanças que buscam desfigurar o que nos é caro. E há sim resiliência na Internet: começou distribuída e colaborativa, sem controle central, aberta à livre experimentação e… ela quer continuar a ser assim.

Com as sucessivas ondas de novos atores, vieram formas de comercialização, monetarização e comportamento que não existiam. Afinal, dados pessoais tem valor! Preferências, navegação e hábitos podem ser explorados comercialmente. E a rede pode também servir para que informações de “segurança” sejam coletadas, mesmo que à revelia. Não era o que se tinha em mente nos anos 80. Mas os conceitos resistem e, quando a tensão chegasse a certo ponto, haveria reação de defesa.

Pode-se identificar a resiliência da Internet com o crescimento da criptografia simples (PGP, 2007), nas propostas de moedas independentes (Bitcoin, 2009) e na criação de novas formas de navegar (TOR – The Onion Router, 20 de setembro de 2002 – há exatos treze anos). Sem discussão do mérito, de falhas inatas, ou daquelas que o uso inadequado das ferramentas permite, pode-se dizer que é uma resposta de defesa, esperada, contra o rastreamento da navegação, monitoramento de interações e ataques à privacidade.